« Regressar


ALGUMAS PALAVRAS ACERCA DO LIVRO

"ELVIS PRESLEY E O CINEMA MUSICAL DE HOLLYWOOD"

 

(Em baixo estão as páginas 26 e 27 deste artigo publicado na Revista Nº 52, da autoria de Francisco Pinto - Portugal)

Tendo acabado de ler o livro de Jorge Carrega julguei não ser totalmente descabido compartilhar com os leitores desta revista a satisfação que me causou a leitura do mesmo. Satisfação causada fundamentalmente por três razões principais. Em primeiro lugar, por se tratar de um livro sobre Elvis editado em Portugal e de um autor português. De facto, tanto quanto sei, anteriormente à publicação de Elvis Presley e o cinema musical de Hollywood apenas haviam sido editados em Portugal três livros sobre o Rei do Rock:

  –  Elvis - Um Rosto que Simboliza uma Época, da autoria de Mike Bruce, editado pela Editorial Íbis em meados da década de 1960, sem data de publicação, cujo original terá sido publicado nos EUA em 1962. De facto, da filmografia de Elvis nele incluída já consta Blue Hawaii e nela se refere estar em preparação um novo filme intitulado Pioneers Go Home, título do livro em que se baseou o argumento do filme de Follow That Dream que se seguiria. 

   –  Elvis, de Isabel Camarinha, César Figueiredo e Francisco Pacheco, editado pela Centelha em 1986.

–  Elvis o Rei do Rock, escrito por José Jorge Letria e publicado em 2008 pela Texto Editora.

Sendo o segundo livro referido uma obra coletiva e o livro de José Jorge Letria uma obra dirigida a um público juvenil (o que não significa qualquer desmérito relativamente ao livro em questão, antes pelo contrário), poderá dizer-se que, pelas suas características específicas, o livro de Jorge Carrega poderá ser considerado o mais relevante livro sobre Elvis de um autor português publicado no nosso país. A segunda razão do agrado que me causou a leitura do livro em análise resulta do facto de o mesmo ter origem numa dissertação de mestrado que teve lugar na Universidade do Algarve. Facto este que garante um desenvolvimento do tema em questão a um nível e com uma profundidade que, obviamente, não se encontra na grande maioria dos muitos artigos e livros que se continuam a publicar sobre o cantor.

     A elaboração de trabalhos de natureza académica tendo por tema a figura ou a carreira de Elvis Presley, indiscutivelmente considerado hoje em dia um dos mais importantes fenómenos de natureza cultural do século XX, não é novidade noutros países. Mas o facto de um trabalho sobre a carreira cinematográfica de um cantor ser apresentado, aceite e aprovado em provas académicas numa universidade pública portuguesa é, certamente, um acontecimento inédito.

     Os factos referidos e a subsequente publicação do livro em análise traduzem, na prática, o reconhecimento, entre nós, da importância que Elvis tem em termos artísticos, não apenas no domínio da música popular, mas também em termos cinematográficos.

Finalmente, uma terceira e última razão para a satisfação que me causou a leitura do livro de Jorge Carrega. Elvis Presley e o Cinema Musical de Hollywood não é apenas um texto de cariz eminentemente técnico sobre a carreira cinematográfica e a filmografia de Elvis. De facto, este livro é uma obra onde a importância e o significado dos filmes do Rei na história do cinema musical norte-americano são reanalisados à luz de conceitos, teorias e padrões estéticos atuais, com o desejável distanciamento temporal relativamente à época em que os filmes foram produzidos e num enquadramento sócio-cultural bem diverso do existente à época da produção desses filmes.

Nestas condições, a capacidade e os conhecimentos do autor no domínio da cinematografia norte-americana e, em particular, na área do cinema musical, permitiram-lhe fazer uma reavaliação dos filmes de Elvis e da atividade deste, enquanto ator de cinema, inovadora e manifestamente credível.

Os resultados dessa reavalição traduzem-se pelos juízos de valor e opiniões expressas pelo autor relativamente à valia da filmografia de Elvis e das qualidades deste como ator. Juízos de valor e conclusões esses que vão contra a ideia generalizada, e bastante negativa, que existe relativamente  à qualidade e ao interesse da maioria (senão da totalidade) dos filmes interpretados por Elvis e às capacidades deste como intérprete. Esta ideia, fundadamente contrariada por Jorge Carrega, e que foi criada e suportada pelos críticos e teóricos do cinema contemporâneos da atividade cinematográfica de Elvis, é particularmente injusta no caso do conjunto dos filmes iniciais do cantor (e, pontualmente, para alguns dos seus filmes subsequentes).

Efetivamente, os filmes iniciais de Elvis não foram apenas vítimas dos críticos cinematográficos, eventualmente cinematograficamente cultos, mas incapazes de perceber e acompanhar as rápidas e profundas transformações por que passava a 7ª arte, e em particular o cinema musical, à época da aparição de Elvis. Facto que obviamente limitava a capacidade desses críticos para compreenderem e avaliarem corretamente os filmes de Elvis.

Eles foram também objeto de críticas que refletiam uma intencional animosidade dos seus autores para com a autêntica revolução social, política e cultural em curso nos Estados Unidos à época da produção dos referidos filmes, revolução essa que Elvis de algum modo representava. O que necessariamente também contribuiu para a imagem de falta de qualidade então colada a esses filmes.

Só assim se pode compreender que filmes produzidos nos melhores estúdios de Hollywood e nos quais, como Jorge Carrega mostra no seu livro, trabalharam produtores, realizadores, argumentistas e técnicos reconhecidamente competentes, em  que  participaram  alguns atores de reconhecido mérito e que tiveram enorme sucesso junto do público, tenham continuado, durante tantos anos, a ser consideradas obras cinematográficas menores. Felizmente que nos últimos anos há sinais inequívocos de que esta situação está a mudar, até mesmo entre nós.

Apenas um exemplo, que ilustra esta afirmação e que envolve o nosso clube.  Em livro editado há já alguns anos no âmbito de um ciclo de cinema dedicado ao cinema musical, promovido pela Cinemateca Nacional(1), João Bénard da Costa, teórico e crítico cinematográfico respeitado e diretor, durante muitos anos, desta Cinemateca, referiu-se em moldes perfeitamente arrasadores a dois dos mais conceituados realizadores de filmes do Elvis. Na circunstância, Richard Thorpe e Norman Taurog (facto citado por Jorge Carrega no seu livro).

Em 2007, quase vinte anos decorridos sobre estes acontecimentos, a mesma Cinemateca (agora denominada Cinemateca Portuguesa), com a colaboração do Elvis 100%, promoveu um ciclo de cinema dedicado a Elvis Presley (Clique). Entre os filmes então exibidos contavam-se 3 filmes dos dois realizadores que, anteriormente, Bénard da Costa havia avaliado tão negativamente(2).

Os factos referidos traduzem bem a evolução favorável da atitude dos conhecedores e estudiosos  do  cinema  relativamente ao real valor de muitos dos filmes desempenhado por Elvis e ao significado dos mesmos no domínio do cinema musical.

Daí que o trabalho de Jorge Carrega tenha uma atualidade e assuma um interesse que importa realçar.

Por todas as razões referidas, recomendo a leitura de Elvis Presley e o Cinema Musical de Hollywood aos sócios do Elvis 100% que gostam de cinema e que se interessem por conhecer os filmes interpretados por Elvis através de um texto com uma profundidade  e  um rigor que não é fácil

(1) O Musical - Cinemateca Nacional, 1988

(2) O Prisioneiro do Rock and Roll (Jailhouse Rock), Amor em Acapulco (Fun in Acapulco) de Richard Thorpe, e Hawaii Azul (Blue Hawaii) de Norman Taurog.  

« Regressar