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ENTREVISTA COM ELVIS PRESLEY - 01 DE JULHO DE 1956
HY GARDNER CALLING

 

Local: Nova Iorque, Warwick Hotel.
Entrevistador
: Hy Gardner

Veja o filme com a entrevista integral:

Olá, Elvis.

Olá.
 

Divertiste-te hoje no Steve Allen Show?

Sim, senhor, diverti-me mesmo, gostei muito.

 

Foi a primeira vez que atuaste com asas de grilo?

Foi a primeira vez que vesti um fato assim, ponto final.

 

Quer dizer que tens mesmo, dizem por aí, quatro Cadillacs, mas não tens nenhum fato?

Não tenho fatos nenhuns e normalmente conduzo os Cadillacs com calças de ganga vestidas.

 

Bem, isso é muito interessante, particularmente quando os polícias te mandam parar para saber se és mesmo o dono dos carros, não é?

É isso, temos de lhes mostrar toda a papelada e coisas assim.

 

Sabes que há bem menos de dois anos atrás estavas a ganhar 14 dólares por semana como arrumador de cinema e depois 35 dólares por semana a conduzir um camião em Memphis. Hoje és o nome mais controverso do show business - esta súbita notoriedade afetou-te o sono, o apetite ou o tamanho da tua cabeça?

Não me afetou o tamanho da cabeça, mas afetou-me o sono.

 

Quantas horas de sono dormes?

Oh, em média durmo umas quatro ou cinco horas por noite, acho eu.

 

E isso é suficiente?

Na realidade, não é, mas estou habituado e não sou capaz de dormir mais.

 

No que é pensas mais, quer dizer, nalgumas das canções que hás-de gravar ou tens planos para o futuro ou quê... O que é que te vai no pensamento?

Bem, tudo me aconteceu tão depressa neste último ano e meio que estou todo baralhado, sabe? Quer dizer, não consigo manter-me a par com tudo o que tem acontecido e...

 

Acho que estás em muito boa companhia com o Coronel Tom Parker, ele tem os pés assentes na terra e acho que ele está a fazer um trabalho maravilhoso para manter tudo a funcionar bem. Sabes que quero dar-te aqui uma oportunidade para falarmos sobre os rumores que têm sido impressos sobre ti, incluindo alguns que foram publicados até por mim, porque alguns podem ser verificados e outros não e acho que devemos esclarecer as coisas. O teu estilo de dançar com giratórios tem sido amargamente criticado, até mesmo pelos críticos de TV que são habitualmente calmos e serenos, como Ben Grose. Tens alguma animosidade para com estes críticos?

Bem, nem por isso, essas pessoas têm um trabalho para fazer e fazem-no.

 

E achas que aprendeste alguma coisa com os criticismos que te têm sido feitos?

Não, não aprendi.

 

Não aprendeste, hein?

Porque não me sinto como se tivesse feito alguma coisa de errado.

 

Lês o que é escrito sobre ti?

Se leio, quer dizer...

 

As críticas.

Não, se puder evitar.

 

Manténs um livro de recortes?

Só das coisas boas.

 

Só das coisas boas... Isso é inteligente. Diz-me, que tipo de adolescente foste tu... Sempre te consideraste bem comportado?

Sim, bem, fui criado, sabe, numa casa bastante decente e tudo isso. Os meus pais sempre me fizeram comportar bem, quer eu quisesse quer não.

 

 

E como se sentem eles agora com o teu sucesso e as coisas que têm sido publicadas pelos críticos que dizem certas coisas sobre ti, tanto boas como más?

Bem, acho que eles são um pouco como eu, sentem-se gratos por tudo. Quer dizer, sempre vivemos uma vida comum, nunca tivemos nenhuns luxos, mas nunca passámos realmente fome, sabe? E calculo que eles apenas, você sabe, se sentem realmente orgulhosos, tal como eu.

 

Bem, saíram dois ou três artigos esta semana que dizem que compraste quatro Cadillacs - que tens a dizer acerca disto, Elvis?

Ah, é, ah...

 

O quê?

É verdade, eu tenho mesmo quatro Cadillacs.

 

E que fazes tu com quatro Cadillacs?

Bem, eu, ah... Não, não sei. Não preciso de quatro, só que, você sabe... Talvez um dia eu fique falido e assim sempre posso vender dois.

 

Bem, algumas pessoas colecionam selos e ações do estado e calculo que Cadillacs devem cair na mesma categoria. Sei que deste um deles aos teus pais, certo?

Bem, tudo o que é meu é deles, quer dizer, todos os quatro também são deles. Estou a fazer planos para ter sete, quer dizer, quero ter sete, sabe.

 

Queres ter sete?

Sim.

 

Bem, já sabes o que vai acontecer, vais acabar por ter uma corporação de aluguer de automóvel Presley.

Sim, estava a pensar num parque de estacionamento de carros usados Presley, sabe.

 

Sei que compraste uma casa para os teus pais e apesar do teu pai ter apenas 39 anos, insististe para que ele se reformasse. Isto é verdade?

Sim, bem... Ele ajuda-me mais quando está em casa do que se estiver noutro sítio qualquer, pois pode tomar conta de todos os meus negócios e cuidar de tudo quando estou ausente.

 

Bem, acho isso bastante inteligente. Nas tuas apresentações pessoais, crias uma espécie de histeria em massa por entre as tuas audiências de adolescentes. Será que os teus abanões e estremeções são uma espécie de resposta involuntária para com esta histeria?

Podia repetir outra vez, senhor?

 

Bem, estou a dizer que quando te abanas e estremeces enquanto cantas, isso é alguma resposta involuntária para com a histeria que vem do teu público?

Involuntária?

 

Sim.

Ah, bem... Estou consciente daquilo que faço em todos os momentos, mas é apenas a forma como me sinto.

 

Quer dizer, por exemplo, se alguém estiver a jogar à bola, jogam com mais incentivo quando os fãs gritam e estava a interrogar-me se seria alguma coisa parecida com isto...

Oh, claro, calculo que qualquer público reage como se estivessem gostar e quando se comportam como se estivessem a gostar de nós, bem, isso faz-nos ficar mais empenhados.

 

Achas que o teu rock’n’roll tem tido uma má influência sobre os adolescentes ou achas que...?

Não vejo como qualquer tipo de música possa ter qualquer má influência sobre as pessoas. Quer dizer, é só música, não consigo entender isso. Muitos jornais dizem que o rock’n’roll é uma má influência para a deliquência juvenil - não acho que o seja. A delinquência juvenil é algo que, ah... Bem, não sei como explicar isto, mas não vejo como é que a música pode ter alguma coisa a ver com isso.

 

Sei que Mitch Miller da Columbia Records define o rock’n’roll como uma forma segura de rebelião contra mãe, pai e professor - concordas com esta análise?

Não sei o que quer ele dizer exatamente com rebelião, quer dizer, como poderia o rock’n’roll fazer alguém revoltar-se contra os seus pais?

 

Bem, acho que isso responde ao Sr. Miller. Agora tenho aqui alguns assuntos que gostaria de esclarecer. Um deles é um bocado pateta para mim, depois de já ter falado contigo algum tempo, mas que tens a dizer sobre o rumor de que uma vez deste um tiro à tua mãe?

(ri-se)... Bem, acho que essa bate os pontos, quer dizer, é a coisa mais engraçada que já ouvi.

 

 

De onde terá saído isto, tens alguma ideia?

Não faço ideia, nem consigo imaginar. Quando mo mencionou agora, foi a primeira vez que ouvi.

 

A sério?

Foi a primeira vez que ouvi falar nisso.

 

Bem, tenho aqui outra que também podes não ter ouvido falar, sobre várias histórias de jornal que dão a entender que fumaste marijuana para ficares todo frenético para cantar. O que dizes disto?

 Ah, não sei.

 

Nem te ralas em responder a esta. Bem, está aqui outra muito interessante. Não sei se reparaste no artigo que saiu no outro dia, em que prevêem que Elvis Presley será outro James Dean - ouviste falar?

Bem, ouvi alguma coisa sobre isso, mas nunca me compararia de forma alguma com James Dean, porque James Dean era um génio a representar, embora deva dizer que, ah, adoraria, quer dizer, acho que há muitos atores em Hollywood que gostariam de ter a capacidade que James Dean tinha, mas nunca me compararia a James Dean fosse de que forma fosse.

 

Se pudesses escolher, preferias ser ator a ser um cantor?

Se fosse um bom ator, visto que não sou um bom cantor, mas se fosse um bom ator acho que gostaria um pouco mais, se bem que se alguma vez começar a representar, continuarei sempre a cantar, continuarei sempre a gravar os meus discos.

 

Bem, essa é sempre uma boa alternativa. Bem, foi muito bom falar contigo e espero que gozes de uma carreira muito longa, quer seja no cinema ou noutra coisa qualquer. Acho também que todas as coisas que se têm dito acerca de ti, ao passo que têm sido extremamente críticas, acho que também te ajudaram a transformar num grande nome, e que te tornou possível fazer todas as coisas que já fizeste pelos teus pais que sempre quiseste fazer. Por isso, Elvis, aconselho-te a encarar as coisas dessa forma.

Bem, senhor, posso-lhe dizer que temos de aceitar sempre o que é mau e o que é bom. Tenho também recebido alguma publicidade muito boa, a imprensa tem realmente sido maravilhosa para mim. Também tenho tido alguma publicidade má, mas temos de estar à espera disso. Sei que estou a fazer o melhor que posso e que nunca disse que não a nenhum jornalista nem a nenhum disc jockey, pois são pessoas que nos podem ajudar neste negócio e ah... Enquanto eu souber que estou a fazer o melhor que posso, isso, isso...

 

Bem, não se pode esperar que faças mais que isso. Foi muito bom falar contigo, fazes muito sentido.

Muito obrigado.

 

Dá os meus cumprimentos ao Coronel.

Serão entregues.

 

Adeus.                                                                  


Fonte
: Livro Elvis Word for Word, de Jerry Osborne

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