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O REI ESTÁ VIVO EM OLIVEIRA DE AZEMÉIS



Homenagem. O maior fã de Elvis é barbeiro e vive em Azeméis. Destaque especial (Encontro de Fãs de Elvis Presley), páginas 24 e 25. - Maria João Caetano.

Elvis. Aníbal Simão transformou a sua barbearia num museu dedicado a Elvis Presley onde tem de tudo: muitas fotografias e até uma madeixa de cabelo do "rei". E é um dos organizadores do encontro de fãs do músico que se realiza amanhã, em Oliveira de Azeméis, e que vai contar com a atuação de dois artistas de tributo a Elvis: Francisco Peças e António Carlos Coimbra.

Um dia, uma namorada da juventude pediu-lhe para ele cortar as patilhas. "Pede-me o que quiseres, mas isso não." O namoro acabou rapidamente, as patilhas permanecem até hoje. O barbeiro Aníbal Simão tem 63 anos e é fã de Elvis Presley desde os 12. "Ouvi na rádio o Love Me Tender e fiquei fascinado. Primeiro achei que era um negro a cantar. Quando, depois, vi uma fotografia do Elvis não queria acreditar," conta. Começou logo a usar "popa" no cabelo para imitar o seu ídolo e assim que teve barba deixou crescer as patilhas.

A paixão começou ali: com dois postais que custaram 15 tostões cada e um pequeno livro sobre Elvis Presley que terá custado 15 escudos. Estes foram os primeiros objetos da coleção que agora ocupa toda a barbearia de Aníbal Simão, em Oliveira de Azeméis. São muitos os posters, fotografias, canecas, isqueiros, caixas de fósforos, latas, bonecos, pisa-papéis e tapetes de rato, camisas e camisolas, gravatas e cuecas, porta-chaves. São tantos os objetos que já é difícil encontrar um espaço vazio naquele salão há dez anos transformado em museu e que Aníbal batizou de "Elvis Barber Shop". Há bustos, serviços de chá, dedais, matrioskas, cartas de jogar, bases para copos. "Sempre que encontro alguma coisa, compro. E os meus amigos também, sempre que vão em viagem, trazem-me coisas." Há recortes de jornais intercalados com fotografias de Priscilla Presley ou de Marilyn Monroe, fotos de Elvis em criança ao lado das fotos das netas do barbeiro. "Se tivesse tido um filho iria chamar-lhe Elvis", garante. Mas tem um canário com o nome do músico e uma filha chamada... Lisa Maria.

Entre as preciosidades, uma moldura com o bilhete com que entrou em Graceland, em 2002, e, numa outra moldura, uma relíquia de Elvis: uma pequenina madeixa de cabelo que supostamente será do músico. E discos, muitos discos. Na televisão estão sempre a passar vídeos de Elvis. "Nunca me farto. Tudo o que é dele é bom. Só ouço Elvis de manhã à noite. Só mudo quando algum cliente se queixa e então ponho Paul Anka, Roy Orbison ou Cliff Richard."

Na rua chamam-lhe Elvis e a sua barbearia é ponto de paragem obrigatório para fãs de todo o País e "até do estrangeiro", diz, orgulhoso. "Alguns querem que eu lhes corte o cabelo à Elvis, outros vêm só para ver. Também há quem ache que sou maluco, mas eu não me importo."

Aníbal Simão foi um dos principais impulsionadores do encontro de fãs de Elvis que acontece amanhã num restaurante em Oliveira de Azeméis. Quando conheceu os dois músicos de tributo a Elvis, Francisco Peças e António Carlos Coimbra, convidou-os logo a ir à barbearia, depois surgiu a ideia de os juntar num evento e claro que Célia Carvalho, a presidente do clube de fãs Elvis 100%, tratou logo de a concretizar. "Será a primeira vez que temos dois músicos juntos no encontro com fãs de Elvis," explica Célia. São mais de 120 os inscritos.

Assistir a um espetáculo de um destes músicos é quase como assistir a um espetáculo de Elvis, garante Célia. A principal parecença é o timbre de voz. Basta fechar os olhos e imaginar. Mas, além disso, ambos vestem-se como Presley, imitam o seu penteado e viram muitos vídeos do "rei" para perceberem como é que ele agia em palco. "Não se trata de uma imitação, ninguém se pode comparar ao Elvis," explica António Carlos Coimbra, músico de 47 anos que, desde 2007, começou a fazer estes espetáculos de tributo. "Este é o meu timbre natural, não faço um esforço para imitar o Elvis. E não sou obcecado em estar parecido com ele. Mas no palco estou a representar um papel, quero que as pessoas recordem o verdadeiro Elvis, por isso há um lado de imitação."

O mesmo diz Francisco Peças. "É uma personagem que interpreto, mas não pode ser uma caricatura. Há gestos que podem ser parecidos porque eu já vi tantas vezes o Elvis que é inevitável. Mas não me esforço para isso. Se sair natural, sai bem, se for forçado, fica ridículo. O mais importante é a voz," explica Francisco Peças, que tem 42 anos e começou a fazer estes espetáculos depois de em 2008 ter ganho o concurso Quero Ser Elvis, lançado pela TVI. Fazem sobretudo apresentações em festas privadas, em hotéis ou casamentos. "As pessoas querem ouvir as canções mais conhecidas, mas como o Elvis tem mais de mil canções, dá para ir sempre fazendo espetáculos diferentes e nunca é aborrecido," diz Coimbra, que até já atuou no Hotel Hilton, em Las Vegas, em 2011, um dos palcos pisados por Presley. Uma emoção para qualquer fã.

"Há os fãs e há os fanáticos." Célia Carvalho, 43 anos, não se considera fanática. "Tenho muitos outros interesses e outros tipos de música. Mas sou fã. Um fã é alguém que não se limita a gostar de um artista, quer ir mais além e saber mais coisas sobre ele." Com a camisola do clube vestida e rodeada de fotografias e estátuas de Elvis, reconhece que é uma sorte ter um companheiro que é fã como ela, mas não é isso que os une. "O Elvis é só uma parte da nossa vida."

A memória mais antiga que Célia tem de Elvis Presley é de ter ficado vidrada com um filme que viu com a mãe na televisão. "A minha mãe já gostava do Elvis, mas em Portugal isso não era muito comum, porque a ditadura coincidiu com o auge da carreira dele. Ela só descobriu o Elvis quando foi para Angola, em 1967, onde havia mais liberdade. Também é por isso, penso eu, que existem poucos fãs de Elvis em Portugal."

No seu caso, foi amor à primeira vista. Com a juventude vieram os posters pendurados na parede do quarto, a voragem de ler tudo o que havia sobre ele. O primeiro disco, encomendado de Inglaterra, chegou pelo correio: o concerto na televisão em 1968, "com ele vestido de cabedal negro". "E nem sequer tinha gira-discos," recorda. "Todo o dinheiro que tinha para comprar discos, filmes, livros do Elvis. Foi com ele que aprendi a gostar de gospel, de blues, de country, porque ele era um artista versátil, que tocava todos os genéros."

Na era pré-internet, os primeiros contactos com outros fãs foram feitos através de anúncios de jornais e por carta. "Durante muito tempo senti-me um E.T. porque não conhecia ninguém que fosse fã como eu." Depois descobriu que há milhares de fãs em todo o mundo, já foi a dois festivais no Reino Unido e foi duas vezes à casa de Elvis, nos EUA, tem contactos com fãs de vários países e foi a fundadora, em 2001, do clube de fãs de Elvis  100% (há um outro clube em Portugal, o Elvis Clube Burning Star e há alguma rivalidade entre eles). O clube já organizou ciclos de cinema e projeções e tem um encontro anual, mas o principal objetivo é partilhar a informação sobre Elvis, seja no site, seja na revista que sai de dois em dois meses. Célia mais de 150 livros sobre Elvis e continua a recolher testemunhos e histórias sobre o ídolo. "Há sempre coisas novas a aparecer, ainda no outro dia descobri que o Elvis gostava muito de fado e ouvia Amália, isso é algo que poucas pessoas sabiam."

FÃS CANTAM PARA ELVIS EM GRACELAND

Homenagem. Em agosto de 1997, 20 anos após a morte de Elvis Presley, Célia Carvalho e mais duas amigas do clube de fãs foram a Graceland, à casa-museu de Elvis Presley. "É uma experiência inexplicável," diz Célia, um pouco emocionada. Às oito da noite, os portões da propriedade abrem-se aos fãs que desfilam, com velas, pela campa do músico. "Naquele ano passaram por ali  mais de 80 mil pessoas e não passaram mais porque às oito da manhã os portões tiveram de se fechar para o museu abrir." Durante a vigília, onde há sempre muitas lágrimas, os fãs cantam Can't Help Falling in Love. "Era a música com que ele terminava os concertos, dizendo como gostava dos fãs. E agora são os fãs que a cantam para ele." Célia voltou a Graceland em 2002, mas essa primeira vez foi especial: "Andámos durante três anos a preparar a viagem, a escolher os espetáculos que queríamos ver, os museus a visitar. Estivemos lá 19 dias e não parámos. Foi muito cansativo, mas foi fantástico." Célia gostava de lá voltar em 2017.

Elvis Presley (1935-1977) morou na mansão de Graceland, em Memphis, no Tennessee, nos últimos 20 anos de vida. Transformada em museu em 1982, a casa é visitada por fãs ao longo de todo o ano mas recebe verdadeiras enchentes nos aniversários: 8 de janeiro (nascimento) e 16 de agosto (morte). Em 1991 a mansão foi reconhecida como "património histórico" dos Estados Unidos. Além de Graceland, os fãs de Elvis costumam aproveitar a visita a Memphis para ir ao estúdio onde gravou os primeiros temas ou para tomar uma refeição do Arcade Restaurant, onde Elvis costumava ir. Muitos fãs gostam também de ir a Las Vegas.

O músico norte-americano é o artista a solo detentor do maior número de hits nas tabelas de venda e também o recordista mundial em vendas de discos em todos os tempos, com mais de mil milhões de discos vendidos. Nos Estados Unidos, ele é o segundo maior vendedor de discos atrás dos Beatles, com mais de 134 milhões de cópias vendidas.

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