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QUANDO NOS CONHECEMOS, PARTE 4 ("Tem de Existir um Princípio")

Finalmente, o dia tinha chegado. Iria pisar o palco pela primeira vez. O meu primeiro pensamento foi, “Graças a Deus que não preciso de passar o meu cabelo a ferro para o alisar. Estou em Vegas!” O meu cabelo comprido e preto, encaracolado e ondulado, estava solto, apenas um pouco acima da cintura, por isso, era um sarilho com a humidade. O clima árido fez essa tarefa por mim. “E agora... Por favor, será que posso ter o meu serviço de quartos esta tarde?”

Desci para o meu camarim às 07h00, vesti-me, maquilhei-me e depois foi até ao hall onde ficava o camarim de Elvis, que era uma espécie de “sala de estar”, para beber um chá quente com limão e mel, que é uma necessidade para mim antes de qualquer atuação ou sessão de gravação. O bar tinha mesmo aquilo que me tinham dito que teria... queijos, nozes e frutas, snacks de legumes crus, café e chá, água engarrafada e, claro, licores para convidados, para os que se atreviam ou para aqueles que não precisavam de cantar ou atuar. A sala estava a fervilhar de conversas, com dois ou três homens atrás do bar a misturar bebidas para eles mesmos. Toda a gente muito amigável, prestável, a rir-se alto. Elvis estava na sua área privada, a preparar-se para o espetáculo. Peguei no meu chá quente com limão e mel na que “agora é a memorável” chávena e pires brancos com uma risca amarela do Hilton e levei-o até ao meu camarim. Uns poucos de “hmmms” mais elevados que o costume (não iria cantar num registo “normal”, nem tão abaixo do meu normal nível de voz a falar, por isso, precisava de fazer um teste à minha voz/som).

“Entrega para a Menina Westmoreland?” Ouvi dizer no final do corredor, perto do elevador. Um lindo arranjo de flores foi-me entregue, assinado “Que seja uma Feliz e Bem Sucedida Noite de Estreia! Tem de Existir um Princípio. Beijinhos, Stu” (era o Sr. George Stuart, proprietário do Birdcage Theatre na Knott’s Berry Farm, que se mantinha sempre a par do que cada um de nós fazia... aqueles a quem ele chamava os “Pássaros que Voaram”, o homem que deu a Steve (Martin) e a mim o nosso primeiro trabalho “Em Casa”, em 1963, a fazer o que adorávamos e fazíamos melhor, permitindo-nos experimentar e desenvolver os nossos números de comédia, números musicais e dando-nos mais experiência com “públicos ao vivo” (isto não pode ser comprado – em lado algum) enquanto desempenhávamos os nossos melodramas por dia durante anos, seguidos dos nossos números da especialidade de cada um. (Cinco espetáculos aos domingos). “George, obrigada,” disse-lhe, enquanto recordava a sua regra no show business:

“És Tão Bom Quanto Apenas a Tua Última Atuação!” Coloquei as flores no meu camarim e esperei interminavelmente, verificando apontamentos que tinha feito, palavras/letras de possíveis canções, rezando para que fosse capaz de criar algo quando fosse necessário, misturar-me bem com as outras vozes quando fosse preciso e não fazer uma total figura de parva e ser apanhada a cantar sozinha (“Nunca Ser Apanhado a Cantar Sozinho” era outra regra para um cantor de apoio, a não ser que fosse suposto assim ser e tivesse de improvisar quando essa ocasião se proporcionasse)  e, ao mesmo tempo, ponderava, “Ninguém sabe o que Elvis vai fazer de segundo a segundo”. A adrenalina estava a começar a invadir-me, como devia ser (se uma pessoa não tiver uma explosão de adrenalina, mais vale sair do show business e procurar outra coisa para fazer).

Ouvi as “Sweets” e Sammy Shore através dos altifalantes e depois soube que era tempo de assumir o meu lugar em palco, do lado esquerdo de Elvis, pois o tempo de Elvis em palco iria começar logo após o próximo intervalo. Enquanto saía do meu camarim, dei um valente encontrão a um corredor vestido de branco... Elvis...

O seu sorriso foi brilhante, os olhos a reluzir com gargalhadas enquanto dizia, “Queria apenas vir dizer-te para te Divertires! Não te preocupes de fazer erros!”, seguido de um dedo indicador a acenar enquanto dizia, “Mas quando apontar para ti, é melhor que cantes alguma coisa, miúda!”

O meu rosto deve ter feito uma expressão espantada, porque ele disse logo a seguir, “Estou só a brincar contigo! Diverte-te apenas! Só estamos aqui para fazer as pessoas felizes... e para nos divertirmos!” E depois ele voltou a correr para o seu camarim, tão rápido, que até me interroguei, “Será que este homem alguma vez vai para algum lado a caminhar normalmente?” Mas era muito simpático e invulgar que alguém para quem eu ia trabalhar viesse dizer-me alguma coisa antes de um espetáculo... para tentar pôr-me à vontade.

Esperei nas alas para que Sammy terminasse, as cortinas fecharam-se, os ajudantes de palco começaram freneticamente a arranjar tudo para a entrada de Elvis, os músicos a instalar-se a afinar os seus instrumentos. Fui para o meu lugar, mesmo ao lado dos Imperials. (Ah! Não havia música... só uma capa preta cheia de páginas e páginas de letras de canções e apontamentos que diziam onde eu devia fazer um solo... SE Elvis “lhe desse para” começar a cantar alguma coisa sem avisar de entre 600 canções diferentes).

John Wilkinson foi o primeiro a dar-me as boas vindas, enquanto se estava a instalar e a afinar. “Se tiveres algumas perguntas ou precisares de alguma coisa, diz-me, okay?” Era muito atraente e muito querido por me querer ajudar, e isto permitiu que eu soltasse um profundo suspiro, para tentar acalmar-me e concentrar-me.

Quando as cortinas estavam prestes a ser levantadas, chegaram os cantores. Os Imperials apresentaram-se e depois entraram as Sweets. Era o nosso primeiro encontro. Segundos antes das cortinas subirem. Apresentamo-nos e depois os tambores de Ronnie Tutt começaram a abanar todo o edifício. As cortinas abriram-se e, do lado direito entrou Elvis, perante o maior barulho feito por uma multidão que alguma vez tinha ouvido na minha vida até então. Momentaneamente até me esqueci que estava nervosa sobre o que fazer enquanto observava este espetáculo de uma perspetiva totalmente diferente. Mulheres que subiam para os topos das mesas, em saltos altos, a fazer furos nos bifes que eram o jantar das pessoas, a deitar garrafas de champanhe ao chão, enquanto ninguém parecia importar-se de ser espezinhado!!??? Os que tinham acabado de perder os seus bifes e bebidas por causa de mulheres aos gritos, histéricas (e alguns homens também, devo acrescentar), achavam que isto realmente tinha piada? Estava tão preocupada que as pessoas pudessem subir para o palco que quase me esqueci que estava nervosa. “Concentra-te. Foca-te, Kathy... foca-te… ignora se o edifício vier abaixo e Faz o Teu Trabalho.” Sim. Hmmm. É só outro dia no escritório. Este Escritório era assim um bocadinho estranho para mim, mas lá consegui não fazer total figura de parva e Elvis piscou-me um olho e sorriu-me umas poucas de vezes para me assegurar que, pelo menos, estava a sair-me “bem”.

Lá se passou um espetáculo de jantar! Seguia-se o espetáculo da meia noite depois do intervalo para o jantar. Ufa! Mudei-me rapidamente para roupas de rua e fiquei a pensar, “Que número era AQUELE que ele cantou? Se ao menos soubesse se ele tinha planos para cantar aquilo outra vez!” Fechei a porta do meu camarim à chave, dei uma curva rápida para a direita para ir até à cafetaria antes que se juntasse ali uma enorme multidão, mas, mais uma vez, lá estava o “Sr. Relâmpago” a passar por mim numa grande rapidez. “Não, ele não deve mesmo saber como é que se vai a caminhar para um sítio qualquer”. Quando vislumbrei a cabeça dele a surgir da esquina que dava para o corredor, ele já estava “em cima de mim”. “Ouvimos-te, querida! Conseguíamos ouvir-te!” O seu sorriso fez-me acreditar que não estava infeliz com as minhas fracas tentativas. “Saíste-te muito bem! Já nos voltamos a ver, okay?” E nem tive tempo para responder… lá foi ele, a correr para o seu camarim, para cumprimentar uma data de convidados e John perguntou-me se eu tinha planos para o jantar. Não, não tinha e sentia-me tão feliz por não ter de tentar lutar contra a multidão para encontrar alguma mesa livre para jantar. Acho que tivemos de ir até outro hotel no Strip para comer o nosso jantar e regressar a tempo para o segundo espetáculo, mas John tinha o seu carro, um Thunderbird muito giro azul claro, que tinha pertencido a Charlie Hodge... durante um minuto, mas Elvis tinha insistido que Charlie o vendesse a John por 1 dólar e comprou um carro novo a Charlie. Isto tinha-se tornado num desafio tão grande para Charlie, estar sempre a receber o aviso para dar o seu carro novo a outra pessoa qualquer e depois receber outro carro novo no dia seguinte. “Aprendi logo muito cedo a não deixar nada que me pertencesse dentro dos meus carros novos,” riu-se ele quando lhe perguntei um dia sobre essa situação.

O Hilton, em 1970, ficava no meio de uma vasta área deserta, e a uma muito boa distância do Main Boulevard, o “Las Vegas Strip”, e assim, John e eu fomos comer um ótimo jantar e regressamos a tempo para o espetáculo da meia noite.

O concerto seguinte foi assim uma mancha enevoada para mim, também devido ao comportamento ainda mais histérico da multidão. O facto de servirem apenas bebidas também não ajudou. Não me lembro realmente de nada, apesar de me esforçar para me ouvir a mim mesma, Elvis, as raparigas e os homens que tinha ao meu lado... mas sem nenhuma sorte. Lembrem-se que os sistemas de som em 1970 eram primitivos quando comparados aos deste milénio. Era um monte de fios elétricos bons para uma pessoa com saltos altos torcer um tornozelo, ou apenas tropeçar. E os microfones e monitores disponibilizavam um autêntico desafio para qualquer artista. “Não tropeces! Feedback! O meu monitor só está a fazer os baixos! Não me consigo ouvir, ou.. Oh, caramba! Aquela mulher magoou-se?” Um grupo inteiro de pessoas em fúria lutavam pelo lenço que Elvis tinha dado à mulher e torceram-lhe o pescoço, haviam dois homens à luta ali perto e, oh, DEUS! Estavam mesmo a atirar com roupa interior e chaves de quartos para o palco? Um par dos rapazes de Elvis apanharam aquela mulher mesmo a tempo, enquanto ela se pendurava no pescoço de Elvis! Outro apanhou dois homens que se dirigiam mesmo na sua direção e... Socooooorrroooo!...  E não te esqueças de te “concentrar, focar e CANTAR ALGUMA COISA!... alguma coisa que se encaixe naquilo que consegues ouvir, Kathy!” Só me lembro de dizer isto a mim mesma, com esperanças de me conseguir ouvir. Até mesmo o meu ser mais calmo e sempre sereno estava a implorar para sair! É para o lado direito do palco, lado esquerdo, é para baixo ou quê...? Se ao menos pudesse voar! Só precisava de chegar às areias do deserto lá fora e transformar-me numa daquelas cobras que estão ali a deslizar por entre as areias... Oh, por favor! Que isto acabe! Tirem-me e a todos nós daqui vivos e inteiros, por favor? ISTO É PERIGOSO! O meu receio de ser apenas boa durante a minha última atuação desapareceu e agora existia um novo receio desconhecido e inimaginável. Perder a vida com uma idade jovem. Estávamos todos em perigo de morrer em cima daquele palco.

Na parte seguinte, falarei sobre como foi estar em palco e nos bastidores com Elvis.                                                            

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