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QUANDO NOS CONHECEMOS, PARTE 4c

Este estranho e invulgar pedido de Elvis foi colocado um pouco de parte entre os dois concertos daquela noite. John apresentou-me a mais fãs, amigos que tinham vindo para ver o concerto seguinte e que andava a escoltar na sala de espetáculos, com esperanças de lhes arranjar bons lugares (algo que eu estaria também em breve a fazer em quase todas as noites nos anos seguintes quando íamos trabalhar para ali), e depois tentar comer qualquer coisa... se tivéssemos tempo. Regressei aos bastidores para encontrar pessoas da gerência do Hotel/Casino a dar-me as boas vindas (lembrem-se que ainda era o International e só seria o Hilton dali a um ano). Do mesmo modo, elementos da orquestra do hotel – que na altura eram a Bobby Morris Orchestra – perguntaram-me se eu podia arranjar-lhes uma fotografia autografada de Elvis. Nessa noite descobri por Charlie que isto era impossível de fazer. “Se fizermos isso a uma pessoa, temos de fazer a toda a gente, Kathy. Vais perceber daqui a um dia ou dois!” E, caramba, SE PERCEBI! Os pedidos eram intermináveis e era muito frustrante ter de dizer que era impossível.

Estava a sair do elevador que dá para a parte esquerda e por trás do palco, tentando adaptar os meus olhos à escuridão que ali estava, quando do outro lado consegui ouvir o que parecia ser missangas a bater em metal, alguém quase a correr e talvez rodinhas a rolar pelo chão. À distância mal podia perceber que movimento vinha na minha direção. Ouvi a voz de uma mulher a incitar, “Mais rápido, mais rápido!” e foi num instante que vi a imagem de uma cadeira de rodas com – nada mais nada menos – do que o próprio Elvis a empurrá-la o mais rápido que podia.

“Kathy! Espera aí! Espera aí! Espera! Tenho aqui alguém que quero que conheças!” disse ele, ligeiramente arquejante.  “Esta é a minha avó, a Dodger. Dodger, esta é a Kathy,” disse, com um enorme sorriso.

Dodger conquistou-me imediatamente com o seu sorriso e estendeu-me a mão para apertar a minha, enquanto dizia, “Fico feliz em conhecê-la! Tenho ouvido falar muito de si.”

“Esta noite vais poder ouvi-la a cantar!” cantarolou Elvis.

“Sim, estou ansiosa por isso,” replicou ela educadamente com um sorriso.

“Temos de ir agora, Dodger, para conseguir arranjar-te um lugar,” disse Elvis, enquanto me piscava um olho e a empurrava dali para fora, para poder ser acomodada no seu lugar durante o espetáculo.

“Que fofinho,” pensei para mim mesma. Era óbvio que ele adorava a sua avó Dodger, pois era ele mesmo que estava a empurrar-lhe a cadeira de rodas. Também fiquei espantada por ela ir assistir ao concerto da meia noite... na sua idade!

Depois desse concerto, todo o corredor nos bastidores estava mais cheio de gente do que tinha visto antes. Enquanto saía do meu camarim, depois de conseguir furar por entre vários corpos de pessoas, com a intenção de ir para cima, alguém me agarrou pelo braço esquerdo e puxou-me para fora da imensa multidão.

Era Elvis, que começou a apresentar-me às esposas dos homens que trabalhavam para ele, e a Priscilla, já que ela tinha vindo para a área do camarim dele com umas poucas de pessoas.

“Esta é a minha mulher, Priscilla”. Ela era linda e estava muito bem vestida. Sorri e estendi-lhe a mão para apertar a dela e disse, “Muito prazer em conhecê-la.”

Agora... quando penso neste momento, consigo entender totalmente porque motivo ela não me correspondeu de uma forma amigável. NÃO entendi o porquê... naquele momento.

“Hum...” pensava eu, enquanto me virava para ir para cima. “Que estranho. Deve haver alguma coisa de errado, ou então está perturbada”, foi o que senti. Elvis estava parado, diretamente atrás de mim, por isso, dei uma volta para me ir embora, os olhos dele estavam esbugalhados enquanto soltava uma gargalhada ligeiramente nervosa e sorria de uma forma que não me pareceu muito natural.

Subi a correr para me encontrar outra vez com John, com esperanças de podermos jantar em algum dos restaurantes do hotel sem termos de esperar muito tempo. Fomos bem sucedidos na nossa missão e fizemos planos para jantar mais cedo na noite seguinte para evitar as multidões, se fossemos capazes. Ficamos de nos encontrar às 17h00, antes do primeiro concerto.

Esperei e esperei que John aparecesse... e NADA DE JOHN. Tentei ligar-lhe e NADA DE RESPOSTA. “Espero que esteja bem!” Isto não era nada típico dele!

Fui jantar sozinha e pensei que talvez se tivesse esquecido do que tínhamos planeado antes para esta hora.

Antes do concerto das 20h00, John não veio para o palco suficientemente cedo para lhe perguntar o que lhe tinha acontecido e era óbvio que não estava a estabelecer contacto visual comigo. Uau! “Tenho a certeza que me pregaram uma partida! Mas gostava bem de saber porquê!” ponderei.

Também desapareceu rapidamente entre os concertos. Depois do concerto da meia noite, voltou a desaparecer! Enquanto o procurava nos corredores para descobrir o que lhe poderia ter acontecido, Sonny West veio ter comigo e fez-me um convite para uma reunião na suite. Lembram-se do conselho que Millie me deu quando se estava a ir embora? (Consultem artigos anteriores). “Se tiveres uma oportunidade de ir até à suite, certifica-te de que vais, aquilo parece um estúdio de cinema! Certifica-te de que vais.” As palavras dela ainda me ecoavam nos ouvidos, enquanto Sonny dizia, “Elvis está a dar uma festa lá em cima esta noite e gostava que fosses até lá,” muito rapidamente seguido de, “Ele apenas quer conhecer-te como amiga.”

Como não era capaz de localizar John e me lembrei do conselho de Millie, concordei ir até lá.

“Bem, esta é uma boa oportunidade de conhecer toda a gente do grupo numa reunião social.” E, claro, era o meu patrão que me convidava, por isso, era um momento em que, ao menos, “é melhor que faças uma breve aparição.”

Todos os artistas fazem um ou dois destes encontros durante os seus compromissos (normalmente, nas noites de estreia e de fecho) e era bom poder aparecer e dizer “olá” a todos do elenco... especialmente ao nosso patrão. Tinha consciência que Elvis convidava pessoas para a sua suite todas as noites, o que era bastante invulgar, mas ele tinha tantos amigos e estrelas que eram seus pares a assistir a todos os espetáculos dele, que aquilo fazia sentido para mim.


A Suite de Elvis.

Cheguei pela primeira vez ao 30º andar, fui cumprimentada por um segurança que estava ali sempre sozinho no seu posto, com um livro aberto que continha os nomes dos convidados. Abriu as portas da suite, enquanto eu entrava e olhava à minha volta. Era tal e qual Millie me tinha dito. Lindíssimo. Uma vista magnífica de Vegas em toda a sua glória iluminada foi a primeira coisa que me chamou a atenção, enquanto olhava para o lado oposto da sala, para uma janela de vidro muito grande, que dava para um enorme terraço e um panorama reluzente do deserto que se estendia durante milhas. As luzes desta cidade eram esmagadoras (disponibilizadas pela Barragem Hoover) e era possível ver-se ao longo de, pelo menos, cem milhas, com aquele ar límpido.

Passei por um bar totalmente equipado do lado esquerdo, onde estavam algumas pessoas reunidas e comecei a apreciar os luxuriantes lustres, a decoração dourada, amarela e preta, e reparando numa sala de jantar, que ficava ao lado de uma cozinha bastante grande que também existia na suite.

Enquanto olhava à minha volta, reparei que Elvis ainda não tinha chegado e também vi uma pequena placa dourada, que estava no extremo oposto desta sala enorme. Estava gravada com as palavras, “Nunca Conheci um Guitarrista que Valesse um Chavo”, assinada por Vernon Elvis Presley (o nome do meio do seu pai era Elvis), o pai de Elvis. Mais tarde viria a descobrir que Elvis levava esta placa para todo o lado onde ia, colocando-a em quase todos os quartos de hotel que ocupou nos quase 7 anos que se seguiram.

Acabei por localizar um espaço num sofá preto, em frente das portas principais e comecei a conversar com umas poucas das 12 a 15 mulheres que estavam sentadas na carpete fofinha, à minha frente. Eram algumas das mulheres mais bonitas que podíamos ver... muito glamorosas. Começaram a perguntar-me, “Como é que ele é?” Um bom início, mas aqui estou eu... quase 43 anos depois... ainda a tentar pintar um retrato dele. (Isto é TUDO CULPA TUA, FACEBOOK... digo isto a brincar para todos o meus amigos no Facebook). Sabem... passei anos a tentar sequer não pensar nisto, quanto mais falar sobre isto, no entanto... GARGALHADA! Como posso eu simplesmente escrever, “Oh, ele era o Máximo!” e esperar que alguém perceba o que quero dizer?

De volta às raparigas bonitas que esperavam para conhecer Elvis e pela minha resposta... “Não o conheço, realmente, não. Comecei a trabalhar para ele há uns dias atrás! Mas parece muito simpático.” Também pensava, “Onde está toda a gente? Onde está todo o elenco?”, quando Elvis fez a sua grande entrada.

Elvis abriu as portas principais da suite e toda a sala fez um “sshhh”. Estava deslumbrante, com um fato de veludo escuro, azul/preto, com fitas que o atavam na frente, sobre o seu peito. Abriu caminho por entre a multidão, cumprimentando todas as pessoas e sorrindo luminosamente. Depois veio ter com as raparigas bonitas que estavam sentadas no chão, à minha frente, e disse, “Olá”, sentando-se no sofá ao meu lado, na parte direita, e um bocadinho demasiado perto. Pôs os braços à minha volta, por cima dos meus ombros quase instantaneamente, enquanto me sentia totalmente chocada.

As raparigas tinham acabado de me perguntar como ele era, eu tinha dito que não sabia e aqui estava ele a comportar-se como se estivéssemos juntos, ou algo parecido? Dei por mim a perguntar mais uma vez a mim mesma, “Mas quem é este tipo! Nunca, nunca tive nenhuma dica... Nenhuma pista! Apenas achava que era uma pessoa amiga e simpática!”

Os olhos delas esbugalharam-se, começaram a dar risadinhas, algumas a pôr as mãos sobre as bocas, tentando não se rir. Rir-se de MIM!

Quis Correr... sair… para o lado esquerdo do palco… para o lado direito do palco… para cima, para baixo, para qualquer lugar. Não queria envergonhá-lo, mas sentia-me envergonhada e extremamente desconfortável.

Encostei-me ao meu lado esquerdo, tentando afastar-me dele... ele aproximou-se mais de mim. Isto aconteceu vezes sem conta e muito rapidamente, até eu decidir “fugir”.

Ele murmurou-me no ouvido, “Fico feliz por teres vindo.”

Agora isto é quase um comentário hilariante para mim, pois viria a descobrir em breve que ele tinha falado com John nessa tarde e tinha obtido a luz verde para me ver. Sim, eu viria a descobrir em breve o motivo de John não ter aparecido. Elvis tinha-se encontrado com ele e tinha-lhe perguntado se tínhamos alguma coisa séria entre nós. E John assegurou-lhe que apenas estávamos a sair juntos, para jantar e que por ele estava tudo bem se Elvis quisesse... hum... “conhecer-me”.

Continua: A nossa primeira conversa a sós.                                             

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