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NÃO ME LEMBRO DE ONDE OU QUANDO ME ACONTECESTE

               Acordei por causa da luz vermelha a piscar, que perpassava pelas minhas pálpebras fechadas.

              “O telefone! Tenho mais mensagens... mais chamadas telefónicas??? Verifiquei com a receção ainda há minutos atrás, não foi?” Tinha-me lembrado de pedir à telefonista para bloquear todas as chamadas telefónicas, a não ser que fosse uma emergência ou uma chamada da minha família... o precioso DND (“Do Not Disturb” / Não Perturbar) ou “Bloquear Todas as Chamadas”) que desta vez tinha colocado, graças a Deus!

              Enquanto me sentava na cama, vi as horas no rádio ao lado do telefone, que estava em cima da minha mesinha de cabeceira. “07h00! Será da manhã ou da tarde?” interroguei-me.

              “Oh, não! Estou atrasada! Tenho de me apressar para o concerto, lá em baixo!”

              Os meus olhos ardiam-me como se não dormisse há dias.

              Verificando os cortinas, um raio muito ténue de luz, quase invisível, brilhava através de uma pequena brecha, que bem poderia ser luz do dia... ou as milhões de luzes brilhantes que zumbiam... sim, zumbiam a um nível bastante audível e que podíamos escolher ignorar a maior parte do tempo, mas que neste momento me estavam a irritar... em Las Vegas, uma “cidade que nunca dorme”.

               Levantei-me de um salto e afastei ambos lados das cortinas... as camadas duplas pesadas que existem em Vegas, para manter toda a luz do sol afastada dos quartos, para que os jogadores nos casinos nunca se apercebam do conceito do tempo, e assim continuarem a jogar a todo o instante.

               “O sol está mesmo a nascer!?? Oh, meu Deus... só dormi duas horas?” Suspirei de alívio, com uma mistura de desgosto.

              “Bem, o melhor será verificar com a telefonista enquanto estou acordada, para ver se tenho algumas chamadas importantes.”

               Estava à espera de notícias de alguns dos meus contratadores sobre marcações eminentes para umas gravações na televisão para a nova temporada que iria começar em breve... em meados de setembro. (Uns poucos de episódios em que eu – como uma das cantoras/bailarinas de Jimmy Joyce nos quais estava a trabalhar já estavam “na lata” (gravados) e prontos para a estreia da temporada, mas tínhamos tido um intervalo que me permitira tirar algumas semanas de folga e tinha decidido preencher este tempo com uma participação temporária no concerto de Elvis. Também precisava de ver se algumas das datas de gravações em sessões de estúdio tinham sido confirmadas.

                A telefonista que me atendeu disse, com um tom de voz frustrado e impotente, “Kathy, você recebeu entre 75 a 100 chamadas telefónicas no espaço de poucas horas, e mais de metade delas dizem ser a sua mãe, o seu pai, prima... e são todas oriundas de países diferentes do mundo inteiro. Tem alguns familiares na Malásia?” riu-se ela.

Silêncio do meu lado da linha.

                Mas ela continuou, “Quantas mães e tias, irmãs, irmãos e primos é que tem? Oh! E por acaso tem por aí alguns filhos e filhas... ah… que são ‘bem mais velhos’ do que você depois de lhes termos perguntado para verificar?” Ela riu-se com vontade. “Temos de lhes pedir as suas datas de aniversário, sabe?” Depois ela terminou com um “Ufa!”, seguido de um “Vejamos... você tem 25 anos... mas teve duas ou três centenas de filhos nos últimos dias que estão todos com 30 e 40 e muitos anos.” Ela estava a rir-se histericamente disto, mas eu NÃO.

                 “O quê?!!!... Eu... eu não estou a perceber.”

                “Bem, não se sinta mal... eu... nós também não percebemos, mas eu... nós... não sabemos realmente como... bem... você está a pôr-nos a todas malucas por aqui!

                “Tentarei descobrir o que é isto para a esclarecer... e ver como podemos resolver a situação. Não quero perder nenhumas chamadas importantes!” Eu estava a abanar a cabeça. “E eu não sei QUEM são estas pessoas ou PORQUE motivo me estão a telefonar a MIM!” Murmurei, seguido por um silêncio entre mim e a telefonista, exceto pelo som das campaínhas que se ouviam no fundo, vindas das slot machines, lá em baixo, e gritos dos jogadores, assim como ruídos que passavam pela linha, feitos perto dela. Ela continuou.

              “Não sei se este é mesmo o seu pai ou não, mas um homem deixou-lhe um recado para dizer, ‘Vamos ter de mudar o nosso número de telefone muito em breve, por isso, liga para casa’. Ele mora em Norco, na Califórnia e jurou que era o seu pai verdadeiro... mas... o que é ‘Norco’?... e... ele pareceu-me sincero, mas... estava sempre a repetir o seu nome e, caramba, se estava irritado! Disse que se chamava Bresee G. Westmoreland e que era conhecido por Breezy, e que esse ERA o nome que você lhe tinha dado... por isso, pensei...”

             “Esse É o meu pai e Norco é o nome da cidade onde eu moro... mesmo à saída de Los Angeles.”

             “Certo... então, hei-de informar as pessoas por aqui. Vamos manter o DND (Não Perturbar) até novas ordens suas, okay?”

               “Obrigada.”

               Voltei a sentar-me, entontecida, a pensar, “Será que alguma vez me habituarei a esta onda sucessiva de choques?”, enquanto desligava o telefone. “Bem, graças aos céus que tudo isto há-de acabar em breve!” Voltei a sentir-me chocada quando naquele mesmo momento, a empregada bateu à porta, gritando, “Limpezas!” Oh, Deus, esqueci-me de pendurar o sinal de Não Perturbar lá fora para elas!” Agora, tinha o coração a mil. “Lamento,” gritei de volta, “esqueci-me de virar o sinal!” Ela replicou com um soante, “Tudo bem! Verifico consigo mais tarde!”

                Deixei-me cair para trás, para cima da almofada e tapei a cabeça com as cobertas.

              “Mudar o nosso número de telefone?... Oh nãããão! Vou ter de informar todos os contratadores, o meu serviço de atendimento de chamadas... oh, Socorro!!!”

               Fiquei ali deitada a pensar no terceiro dia sobre o palco com Elvis, quando ele continuava a apresentar-me como sendo de Norco. Naquela noite, depois do concerto da meia noite, uma mulher maluca qualquer, foi a conduzir diretamente para minha casa e bateu na porta da frente às 07h30 da manhã, alegando ser a minha melhor amiga. (Norco era uma cidade bastante pequena na altura... 100.000 cavalos, sim... mas apenas 10.000 pessoas, por isso, os únicos Westmorelands na lista telefónica eram mais fáceis de localizar do que a Torre Eiffel em Paris). Os meus pobres pais, sem suspeitar de nada, deixaram-na entrar, embora estivessem a tomar o pequeno almoço. Começaram a desconfiar do estado mental dela quando ela lhes perguntou se eu estava em casa... se Elvis ali estava... e continuou por lhes contar que gostava de alojar ali um dos seus cavalos. (O que faria uma pessoa sã de espírito pensar que qualquer um de nós podia estar ali quando tinha acabado de nos ver em Vegas era uma grande pista, suponho eu). Eles disseram-lhe, “Não, não alojamos aqui cavalos e ‘eles’ não estão aqui, por isso... deixe-nos acompanhá-la até à porta.” Livraram-se dela, mas... (e este é um GRANDE “mas”...) esta mulher irracional continuou por… ah… bem… (isto é quase demasiado irracional até para datilografar)… ela foi até à empresa de serviços públicos de Norco e mandou todos os serviços de utilidade pública mudarem tudo para seu nome. Isso mesmo! Precisam de voltar a ler isso? E agora… eu pergunto-vos… COMO É QUE DIABO É POSSÍVEL QUE QUALQUER PESSOA FAÇA ISSO?!!! QUE TIPO DE MENTE TEM ESTA PESSOA PARA SEQUER CONCEBER UM ATO TÃO BIZARRO... E, MEU DEUS... “P...O...R...Q...U...Ê?!!!”

                  O meu pai telefonou-me a gritar tão alto que precisei de uns dez minutos, pelo menos, para o fazer escutar-me, e convencê-lo que não fazia ideia de quem esta mulher era ou como os tinha encontrado, ou porque motivo isto tinha acontecido. Ele já quase se tinha acalmado, assim pensava eu, quando voltou a irar-se, “E levei UM DIA INTEIRO e gastei Quinze Dólares para voltarem a mudar tudo para o nosso nome!” Um homem que conhecia bem a minha família trabalhava lá e começou a suspeitar que algo estava errado, por isso, felizmente, tinha alertado o pai, mas... depois do facto já ocorrido.
    
 Esta foi a nossa primeira apresentação a uma forma de insanidade que continua a ser inexplicável.                   
                                                                                                                

(Continua)                                                                                             
                                                                                                                                                                                                                    

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