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ENTREVISTA COM BILL BELEW - 27 DE MAIO DE 2005

   
Legendas: Bill Belew com o seu colar TCB, um dos seus desenhos e Elvis exibindo um dos fatos criados por Bill.

Bill Belew distingue-se por ter sido a pessoa que concebeu todos os fatos de palco e pessoais de Elvis Presley, desde 1968 até à sua morte, em 1977. Licenciado pela Parsons School de Design em Nova Iorque, Belew também já concebeu fatos para uma multidão de artistas, incluindo Lynne Redgrave, Lena Horne, Josephine Baker, Ella Fitzgerald, Gloria Swanson, Sandy Duncan, Victoria Principal, Pia Zadora, Joan Van Ark, Brooke Shields, Jaclyn Smith, Joan Rivers, Gloria Estefan, Gladys Knight, Roberta Flack e Dionne Warwick, bem como Milton Berle, Doc Severensen, entre muitos outros.

 

Foi Elvis quem o abordou para o Especial de 68?

Na realidade, foi Steve Binder, que foi quem produziu o espetáculo, e também o realizou. Ele tinha reunido um grupinho de várias pessoas, éramos todos da costa oriental. Porque na altura ele queria que se fizesse algo diferente do que se tinha feito em Hollywood até então. E a minha primeira experiência a trabalhar com o Steve foi no Especial de Petula Clark, quando Petula veio à América. Fizemos esse especial e fomos recebidos com grandes aplausos e elogios de todos os lados. Por isso, quando Steve foi contactado para fazer um programa sobre Elvis, perguntou-me se fazia o guarda roupa, pois queria manter o nosso grupinho todo junto.

 

Qual foi a ideia que teve para o fato de cabedal preto?

Na realidade, quando começámos a falar no assunto, o Steve disse que queria literalmente fazer tudo em torno de um concerto, de Elvis e dos rapazes. E disse, “Que pensas tu sobre o que deve ele vestir?” E eu pensei no assunto e respondi, “Já o vi com um casaco de cabedal, mas nunca o vi todo de cabedal.” E disse, “Porque é que nós não…” porque naquele tempo, toda a gente andava de ganga. Quer dizer, usava calças e casacos de ganga. E eu sugeri, “Porque não mandamos fazer um casaco de ganga e umas calças de ganga? E porque é que não mandamos fazer as mesmas peças de roupa, mas em cabedal preto?” E o Steve disse, “Adoro a ideia que acabaste de dar. Fazes um desenho disso?” e fiz-lhe um desenho. E foi assim que começou. E, quando olhamos para Elvis, a coisa que mais me impressionou quando o conheci, foi que era realmente um homem muito atraente. E quando comecei a fazer fatos, muitas das coisas em que me baseei na altura foi em períodos e fases que estava a atravessar na vida. Sempre fui um grande fã de Napoleão. E quando olhei para Elvis, disse que ele era a pessoa certa com quem eu podia experimentar o colarinho Napoleónico, porque seria como uma moldura do seu rosto. Ele disse que gostava muito de muitas coisas que eu fazia para as mulheres, quando estava a conceber as suas roupas, para chamar a atenção para os seus rostos. E eu pensei, bem, se eu conseguir meter ali o colarinho, as pessoas vão reparar no rosto dele e o colarinho vai emoldurá-lo. E foi assim que o colarinho surgiu.

 

Então a ideia foi sua, não foi de Elvis.

Não, a única coisa que realmente tenho a dizer sobre Elvis foi que foi absolutamente fantástico comigo. Nunca disse uma única vez, “É isto que quero”. Sabe? Do tipo, faça-me isto. Ou não quero vestir isto. Só tivemos um pequeno desacordo em algo que estávamos a fazer no especial. Mas durante todo o nosso relacionamento profissional, nunca houve uma situação em que ele não tivesse sido fantástico.

 

Quando Elvis fez o seu regresso a Las Vegas, fale-me do que ele vestiu.

Bem, quando o Joe me telefonou a dizer que o Coronel Parker gostava que eu fizesse o guarda roupa de Elvis para Vegas e se estava interessado, disse-lhe que sim. Na altura o que quisemos fazer foi experiências sobre o que teria um melhor aspeto nele. E claro, ia ser a minha primeira vez a trabalhar em Vegas. Já tinha trabalhado em Nova Iorque para os palcos, mas era bastante diferente. As iluminações aí ainda estavam nos seus primeiros estágios de evolução. E descobrimos que a cor que funcionava melhor era o branco. Isso permitia que eu pudesse mudar as cores nele, ao passo que o preto absorveria todas as outras cores. E ficava também mais difícil de o fazer destacar-se. E também fizemos experiências com o azul, que era um das suas cores favoritas. Vermelho. Mas íamos sempre parar à mesma conclusão, que o branco era melhor e, claro, como sabe, queremos que a estrela seja a pessoa e não o guarda roupa.

 

O preto detinha mais calor.

Sim, isso também, como sabe. É ótimo. Faz-nos parecer mais magros. Mas naquele tempo Deus é testemunha que uma das minhas preocupações não era fazê-lo parecer magro. Quer dizer, eu sempre tive muita sorte e é o que sempre digo quando falo com os clubes de fãs. O Bob Mackie teve a Cher, eu tive o Elvis Presley. Quer dizer, era um corpo fabuloso sobre o qual trabalhar. Ele tinha realmente uma forma especial de usar as roupas e de as experimentar.

 


Legendas:
Elvis a exibir mais um fato, outro desenho de Bill e a capa para o fato Aloha.

 

Os fatos eram feitos de tecido de gabardine?

Para o especial, foi um tipo de tecido que usei na altura, mas era muito quente. E havia um tecido que estava a ser muito usado nas roupas masculinas que era um tipo de malha jersey que esticava. Por isso, quando fomos para Vegas, contactei Ice Capades e falei com alguns amigos que lá tenho. E disse, “Será que estavam interessados em fazer as roupas de Elvis Presley para Vegas?” Pois eu gostava de usar o tecido que é famoso por ser utilizado pelos patinadores no gelo, ou gabardine. Isso permite que os patinadores possam fazer as espargatas, as reviravoltas e tudo o mais. E pensei que havia de ser ótimo para Elvis porque uma das coisas que ele disse que queria incorporar no seu espetáculo era o karaté. E pensei que tinha de encontrar algo que lhe permitisse fazê-lo. O tecido de malha de lã que utilizámos muito para os fatos deste especial, muito embora tenham um aspeto óptimo, é muito quente. E eu sabia que ele era uma pessoa que transpirava muito quando atuava ao vivo. Por isso, não queria acrescentar mais calor que aquele que era absolutamente necessário ao seu guarda roupa.

 

Os seus fatos começaram a ter cada vez mais jóias. Qual era o fato favorito dele?

Bem, eu sei que ele gostava do fato do dragão. Sei que gostava do pavão. Gostava do leopardo. E, claro, acho que possivelmente o seu favorito sempre foi o fato Aloha, com a águia americana, sabe.

 

Não recebeu um aviso prévio com muito pouco tempo para fazer uma capa?

Certo, certo. Bem, tive esta grande ideia quando estávamos para estrear no Hawaii. E tivemos longas conversas sobre como iria ser o fato, porque Elvis disse, e foi realmente a única vez que ele expressou qualquer tipo de preocupação sobre o que iria vestir. Ele disse, “Bill, quero que o fato diga América.” E discutimos muito sobre o que iríamos fazer. E lembro-me quando estiva na Europa, tinha visto lá a Embaixada Americana. E na altura havia uma grande controvérsia pelo facto de a embaixada ter uma grande águia americana na fachada. E eu disse, “Já sei.” “Sei o que vai funcionar porque já tinha pensado na bandeira americana”, mas eu disse, “Não, não.” E disse, “A águia americana”. E ele disse, “Isso é fantástico. Gosto disso,” e foi o que fizemos.

 

E eu então disse, “Vamos fazer esta capa, entras no palco, com as costas viradas para o público e abres a capa. E depois, quando começar a abertura, tu viras-te de repente e lá estarás tu.” E a capa devia ter um comprimento até aos pés. E fizemos essa capa. A capa foi enviada para o Hawaii. E Elvis vestiu-a, ia dar um passo em frente e caiu para trás, de costas no chão. A capa era tão pesada que ele nem sequer era capaz de caminhar com ela posta. E recebemos um telefonema que dizia, “Bill, a capa é linda, mas o Elvis não se consegue mexer com ela vestida.” Então entrámos imediatamente em produção, fizemos uma capa mais curta, para que ele a pudesse usar. Mas sempre tive esta imagem, durante todos estes anos, dentro da minha cabeça, de Elvis a dar um passo para a frente e pumba. Ali caído, no meio desta capa enorme. E também consigo vê-lo a rir às gargalhadas.

 

Quanto tempo teve para fazer a nova capa?

Só tivemos pouco mais de um dia. Trabalhámos literalmente 24 horas na capa.

 

Elvis também teve problemas com franjas?

Muitas das coisas que fiz para Elvis naqueles primeiros tempos eram coisas que eu e outros miúdos usávamos na altura. Por isso muitas coisas eram enfeitadas com macramé, franjas e contas, dessa época. E, claro, como sabe, com todos os movimentos que fazia e a tocar guitarra, nunca tinha pensado que as franjas se podiam emaranhar nele. Foi muito depois, quando fiz mais umas roupas para outras estrelas, em que também usei franjas, é que os vi todos emaranhados nelas. E pensei, “Oh, meu Deus, como devia ter sido para Elvis, com todas aquelas franjas a abanarem à sua volta.”

 

As franjas eram tão compridas em Inglewood que ele ficou atado.

Certo, sim. Oh, sim.

 

Qual foi a ideia por detrás do fato cigano?

Foi apenas uma ideia, como tudo o resto. Eu tinha acabado de ver um filme com um fato cigano e pensei que poderia ser interessante. Estava sempre a tentar pensar em coisas interessantes, já que tantas das coisas que fazíamos e o progresso dos fatos de Elvis eram realmente ditados pelos seus fãs. Muitas das coisas que fiz gostaria de as ter iniciado muito mais cedo. Mas uma coisa que na altura nunca quis que acontecesse com roupas que eu concebesse para Elvis, foi que se fizesse alguma menção à sua masculinidade, sabe? Do tipo, porque está ele a usar aquilo? Por isso, foi realmente um progresso ditado pelos fãs. Quanto mais fazíamos, mais eles aplaudiam. E mais faziam por isso. Então acabou por chegar ao ponto em que em pensei, bem, podemos acrescentar jóias, que nunca se vai questionar o porquê de estar usar esta ou aquela roupa.

 

Fale-nos do Sundial.

Mais uma vez, estava a ler algo numa revista e aconteceu deparar-me com um artigo sobre os Aztecas. E vi o sol azteca e pensei, isto era capaz de dar um belo desenho. E limitei-me a usá-lo.

 

Parece tão intricado e difícil de fazer.

Não. Houve outros que foram muito mais difíceis de fazer, mas era muito intricado pelo facto de ser bastante bordado. E levou bastante tempo até ter o padrão todo feito.

 

Você trabalhou em fatos futuros.

Bem, a última coisa na qual estava a trabalhar e chegámos a ter um protótipo do fato, chama-se o fato laser. E até me encontrei com um eletricista que era especialista em lasers. E naquele tempo os lasers eram relativamente novos. Agora os espetáculos com laser são uma coisa estrondosa. E por isso, concebi aquilo que seria considerado como o fato das jóias. Chamava-se o fato diamante. E o que fizemos foi que haviam certas partes que tinham pedras bem grandes de onde os raios laser seriam disparados. E estas pedras estavam posicionadas estrategicamente no fato. Sempre que ele se tocasse nalguma parte do corpo, haveriam estes raios laser. E chegámos ao ponto em que o tivemos quase pronto para lhe mostrar. E foi, de facto, na manhã em que soube da sua morte. Ia a caminho do estúdio pois íamos vesti-lo ao manequim. E o eletricista e eu íamos testá-lo. E foi assim.

 


Legendas: Bill Belew, pouco antes de ter morrido, e mais uma das suas criações.

 

Se Elvis tivesse chegado a ir à Europa, que ideias tinha você para as roupas?

Era o fato laser. Sim, era esse, sabe? Mas, como sabe, não deu… pois.

 

Diga-nos como era trabalhar com Elvis. Tem algumas histórias engraçadas para partilhar, para além daquela que já contou sobre a capa?

Ele era sempre tão impecável que nunca questionou nada daquilo que fiz. Muitas vezes o Joe telefonava e dava recados. Lembrei-me duma história engraçada. Tínhamos acabado de estrear em Vegas. E eu não conhecia este Elvis, que Elvis era uma pessoa notívaga. Naquele tempo eu era consideravelmente mais jovem, por isso, provavelmente por volta das 23h30 ou meia noite era a hora em que eu ia para a cama. Uma noite eu estava na cama. E acho que eram para aí umas 2 ou 3 horas da manhã quando o telefone tocou. E, claro, naquela fase da minha vida, a primeira coisa em que pensei foi na minha mãe. Que tinha acontecido alguma coisa. É a minha mãe e estão a telefonar-me por causa dela. Atendi o telefone e era o Joe Esposito a dizer, “Quero falar contigo. O Elvis quer encomendar mais umas roupas.” E de repente apercebi-me que não tinha nenhum papel, caneta, lápis, nada. Tinha uma mesa de cabeceira ao lado da cama e estava forrada a veludo. A única coisa que pude fazer foi utilizar o dedo para escrever os pedidos do Joe no veludo e pensar, “Por favor, meu Deus, deixa-me lembrar-me de tudo o que ele me está a dizer.” Estou a escrever aquilo tudo e o Joe a dar-me imensa informação. Mal ele desligou, levantei-me logo, acendi a luz, peguei num lápis e num papel, sentei-me e comecei a decifrar os meus apontamentos. A partir daquele momento tive sempre lápis e papel na minha mesa de cabeceira. E disse, “Isto nunca mais me há-de acontecer.”

 

Mas basicamente todo o guarda roupa que fiz para o palco, ele nunca disse nada sobre o mesmo. E mais tarde vim a saber que aqueles fatos que me faziam rir, eram os que ele vestia para fazer passagem de modelos para os rapazes. E já vi fotos tiradas pelas pessoas que o viram a fazer passagem de modelos do guarda  roupa, a rir-se e a divertir-se.

 

E depois, claro, quando as relações públicas chegaram ao ponto em que ele falava tanto e encontrava-se com tanta gente, que me disse se eu faria o seu guarda roupa pessoal. Porque era um corpo difícil de vestir, no sentido em que não podia ser algo de vulgar, se comprava alguma coisa nas lojas, depois tinha de ser algo alterado. E tal como muita gente, ele não gostava de ter de arranjar sempre as roupas que comprava. Por isso calculo que lhe tenha feito algumas coisas bem interessantes e provavelmente uma das mais importantes foi quando ele conheceu o Presidente Nixon. Ele telefonou-me e disse-me, “Quero que me faças um fato porque vou conhecer o presidente.” E lembro-me de isso ser uma grande excitação para ele, pois lembro-me que eu já tinha trabalhado para o Kennedy. E eu tinha feito um espetáculo em Nova Iorque para o qual Jacqueline Kennedy nos tinha convidado para sermos uns dos poucos permitidos na Casa Branca para a festa do seu aniversário. E sei muito bem como ele se devia estar a sentir, sendo ele um pequeno rapaz sulista. Não há nada de mais entusiasmante do que conhecermos o nosso presidente. E então, um dia eu estava lá casa, depois de Elvis ter regressado. E  normalmente o que eu fazia era que ficava na sala de estar e orientávamos todas as nossas reuniões.

 

Disseram-me para regressar ao quarto e pensei, oh, meu Deus, o que é que vai acontecer agora, sabe? Vão mandar-me de volta. Ele e Priscilla estavam sentados na cama e ele tinha os livros e os panfletos todos que tinha adquirido do Presidente. Disse-me que queria que visse aquilo tudo, como era fantástico. Estivemos ali sentados a olhar para os livros e para as coisas que foram autografadas para ele. E eu disse, “Sei exatamente como te sentes porque sei como foi quando conheci o Presidente Kennedy.” Tinha achado a coisa mais espetacular que já me tinha acontecido. E depois acabei por vir a trabalhar com Tish Baldridge e ela disse, “O que posso fazer por ti?” E eu disse, “Algures nos arquivos, há uma foto minha com o Presidente Kennedy. Gostava de a ter.” E Tish Baldridge foi absolutamente fabulosa. Não sei como foi que a descobriu. Mas encontrou, fiquei com a foto e ainda está em cima da minha mesa, na sala de estar. Mas tal como disse a Elvis, disse, “Sei como te sentes entusiasmado. Consigo mesmo, estou mesmo contigo.” Ele era como um rapazinho, sabe. Comemos um doce e, caramba, estávamo-nos a divertir. E acho que tenho um livro e mais uns papéis que ele me deu nessa noite. Disse, “Quero que fiques com isto, da visita que fiz à Casa Branca.” Fantástico.

 

Foi um tipo de fato roxo que Elvis levou para conhecer o presidente?

Não, foi azul muito escuro.

 

No que é que estava a pensar quando concebeu aquele fato?

Bem, era muito semelhante ao outro tipo de roupas que já tinha feito para ele. As roupas básicas, quero eu dizer. E a única coisa de diferente que fiz foi acrescentar uma capa ao fato, algo que às vezes fazíamos e outras vezes, não.

 

Fale-nos do seu TCB.

Fiquei absolutamente espantado. Sabe? Já tinha visto os rapazes com os seus TCBs. E um dia, estava lá para cima e estávamos a falar de guarda roupa e outras coisas. E ele estava, como quase sempre fazia naquele tempo, sentado no chão à minha frente, enquanto falávamos. E ele disse, “Tenho uma prenda para ti.” E abriu-a e lá estava o TCB. Nem queria acreditar. Pensei, meu Deus, agora sou um dos rapazes. A sério.

 

Fale-nos das recordações que tem do Coronel Parker.

Tive muito pouco contacto com o Coronel. Quase todos os meus negócios eram feitos com Elvis.

 

Onde é que trabalhava?

Em Los Angeles. Vivia em Los Angeles nessa fase da minha vida. Sim, porque estava a fazer imenso trabalho na televisão e outras coisas ao mesmo tempo.

 

Houve alguma coisa que Elvis lhe disse que tenha ficado na sua memória para sempre?

Não, não, nem por isso. A única coisa que recordo foi que uma vez ele me telefonou a dizer que o Sonny West se ia casar e queria um fato. E que fosse um smoking. Então fiz-lhe um smoking. E ele disse-me, “Vai até à Schwartz and Albusser e manda-os fazer algumas jóias.” E eu disse, “Oh não, não, Elvis. Isso é muito pessoal. Vai lá tu,” sabe? “Não, não, não, vais lá tu. Tu é que vais escolher o tipo de jóias.” E então lá fui eu e foi assim que conheci o Saul e o Abe. Conforme o tempo foi passando, fomos ficando amigos.

 

Esta é apenas uma das muitas histórias que mostram como este homem era generoso. E o Saul contou-me que havia uma senhora que costumava ir até à loja bastantes vezes, para admirar um anel com esmeraldas e diamantes. E era muito dispendioso. Mas ela não parava de aparecer. Olhava para ele e eles tentavam convencê-la a pagar, a dar algum dinheiro e depois ir pagando. Não, não, não, o seu marido não permitiria. Então um dia ela estava lá quando Elvis entrou. Ela olhou para o anel e o Saul voltou a guardá-lo no estojo. E Elvis perguntou, “Que é que se passa?” E ele respondeu, “Bem, sabes” e contámos-lhe a história dela. E em como sempre tinha querido este anel e tinha medo que o marido se zangasse se o comprasse. E ele disse, “Vai lá buscá-lo, embrulha-o e dá-lho.” E o Saul disse, “A sério?” Ele respondeu, “Faz isso  já.” E ele fez. Foi ter com a senhora e ela disse, “O que é isto?” E ele explicou, “Aquele senhor que ali está, o Sr. Presley, gostaria que a senhora ficasse com este anel.” E ela ficou muito emocionada e disse, “”Não, não, não pode fazer isto.” Mas Elvis disse, “Qualquer pessoa que quer assim tanto uma coisa, deve tê-la.” E continuou, “Quero que fique com ele. E por favor, aceite-o com o meu carinho e a minha gratidão.” Eu achei aquilo a coisa mais espetacular do mundo. A mais espetacular.

 

Há alguma história favorita que queira partilhar com os fãs?

Oh. Acho que é sobre o fato que se rasgou em Vegas. Eu fiquei para morrer. Só me queria enfiar debaixo da mesa. Senti-me tão envergonhado quando soube que o fato se tinha rasgado. Escusado será dizer que tentei evitar que isso voltasse a acontecer. Para mim havia muitas coisas especiais em relação a ele. Já não falando que houve imensas pessoas, muitas delas maravilhosas que me abriram as suas portas (por causa dele) para lhes conceber as roupas. Provavelmente não teria tido essa oportunidade se não tivesse sido ele a dar-me aquela “estreia”, sabe? Porque ele estreou-se mesmo. Aquele especial causou muito falatório e foi muito interessante. Ainda o acho interessante e às vezes, mesmo hoje, ainda o ponho a tocar, só para o ver. E continua a ser maravilhoso. Mas tenho outra história.

 

Fale-nos dela.

Já me tinha esquecido desta. Quando o Joe nos telefonou a dizer que a capa e o cinto tinham sido atirados para o público, não estávamos preparados para isso. Nós, é claro, fomos imediatamente produzir outros. E nessa altura eu estava a fazer um espetáculo com Flip Wilson. E tinha mais uma vez criado Geraldine para Flip. Ele sabe como ela era. Mas a nível visual, não. Por isso disse, “Deixo a teu cargo a criação de Geraldine”. Então tive de ficar em LA naquela sexta feira à noite em que íamos gravar e as roupas tinham de ir para o Hawaii. Sendo assim, mandaram-nos o avião, os bilhetes, estava tudo tratado. Disse ao Nicky, que fazia os trabalhos dos bordados nos fatos de Elvis, “Nicky, faz-me um favor, por favor. Pega nestas roupas e vai até ao Hawaii entregá-las por mim.” E o Nicky disse, “Oh, claro, porreiro.” Então, lá foi ele. E havia um lugar no avião vazio para pôr as roupas de Elvis. E assim, pouco depois de terem levantado voo, a hospedeira veio ter com ele e disse, “O que é isso que tem aí no lugar ao seu lado?” E ele respondeu, “São a capa e o cinto de Elvis Presley. Vou entregá-los ao Hawaii para o seu especial televisivo.” E passado pouco tempo o Nicky disse, “Ouvi uns murmúrios.” E ele disse que era a hospedeira. Ela disse, “A capa de Elvis está em cima daquele lugar.” Ele contou que passado pouco tempo ela voltou junto dele e disse, “Posso tocar nisso?” E ele respondeu, “Claro”. E ela baixou-se para tocar no embrulho e voltou para trás a dizer, “Toquei na capa de Elvis”. Tinha-me esquecido como isso era engraçado até o Nicky me recordar daquela história. “Toquei na capa de Elvis.”

 

Mas talvez não se surpreendesse por saber quantas pessoas hoje gostariam de tocar nas roupas de Elvis.

Exatamente. Sim.

 

Os seus fatos são tão originais que em todo o lado onde vemos Elvis, vemos o seu trabalho. Como é que isso o faz sentir-se?

Maravilhosamente bem. Acho que provavelmente uma das coisas mais espetaculares e incríveis que me aconteceu foi há cerca de três ou quatro anos atrás, na Esquire. O Versace disse, “A única coisa que invejo é Bill Belew ter tido o trabalho de vestir Elvis Presley. Esse teria sido um trabalho que eu gostaria de ter tido.” Tenho esse artigo guardado comigo e quando de vez em quando fico em baixo, pego nele e leio-o e penso, “Isso não é nada mau, miúdo”. Principalmente vindo de um pequeno saloio do sul. É bastante bom saber que o Versace também gostaria de ter feito as roupas de Elvis.

 

Você fez Elvis feliz e fez milhões de fãs em todo o mundo felizes. Daqui a mil anos ainda estarão a apreciar o seu trabalho.

É tão bom ter tido a oportunidade de fazer parte da vida dele, a sério.

 

E foi tão bom tê-lo aqui junto de nós para falar connosco. Obrigado.

Oh, o prazer foi meu, sempre.

 

Fonte: Internet.

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