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CONVERSA TELEFÓNICA ENTRE ELVIS E RED WEST
OUTUBRO DE 1976

    
Como achamos que este assunto pode interessar a muitos de vós e porque temos acesso à transcrição desta conversa telefónica no excelente livro Elvis: Word for Word, da autoria de Jerry Osborne – entendemos por bem fazer uma tradução da mesma para partilhar convosco. Leiam e tirem as vossas próprias conclusões. Quanto a nós, sobre a polémica que os guarda costas de Elvis que escreveram o livro Elvis: What Happened? sempre parece gerar, vamos apenas dizer o seguinte: para quem diz que Elvis estava meio louco, senil até, que não sabia o que pensar ou o que dizer nesta altura da sua vida e carreira, esta conversa contraria tudo isso. Mas também podemos ver o quão facilmente manipulável Elvis era, principalmente por não se querer aborrecer com certos assuntos, acabando sempre por ter de pagar, de uma alguma forma, por esse tipo de atitude - de não querer enfrentar as situações de frente e resolvê-las como era necessário. Seguem-se também algumas explicações adicionais para vos situar no contexto da conversa, que podem ser úteis.

Evento: Conversa telefónica entre Elvis, em Memphis, no Tennessee, e Red West, em Los Angeles, na Califórnia.

Fonte: Cassete áudio (data exata desconhecida).

Red West: Daqui fala-vos Red West. Estão prestes a ouvir uma conversa telefónica entre Elvis Presley e eu mesmo que eu gravei algures em outubro de 1976, enquanto eu estava em Los Angeles a escrever o livro Elvis: What Happened?, juntamente com o meu primo Sonny West e Dave Hebler. Não era segredo que estávamos a escrever o livro, e conhecendo o Elvis como eu conhecia, sabia que ele haveria de tentar de nos contactar. Também sabia que iríamos ser chamados de mentirosos, Judas, traidores e outros “elogios” pelos fãs e até por algumas pessoas que o rodeavam e de quem havíamos sido íntimos até a esta altura. Sabia que ele iria revelar nesta conversa informação suficiente que substanciaria o que iríamos dizer no livro. Ainda conteve mais informação do que aquela que eu estava à espera... e mais do que aquela que queria ouvir. Com isto quero dizer que ouvi um homem triste e solitário, um homem com o qual eu havia crescido e a quem vira ascender de uma pobreza quase extrema até ser o maior artista que este mundo alguma vez irá voltar a ver. Um rapaz preso num corpo de homem que não era capaz de lidar com o estatuto de celebridade que agora era. Tinha uma sensação horrível de que nunca mais voltaria a ver o meu melhor amigo... e não voltei mesmo.


Legenda: Red West com Elvis, em Biloxi, verão de 1956.

Nota do autor do livro de onde foi feita a tradução da transcrição apresentada, Jerry Osborne:

(A cassete áudio não começa no início da conversa entre ambos, por isso não temos a certeza do que possa ter sido conversado até a esse ponto. Uma suposta transcrição aparece no livro Elvis: What Happened?; no entanto, uma vez que o restante dessa transcrição varia significativamente da conversa que realmente teve lugar, não confiamos que essa transcrição apresentada no livro da conversa inicial possa ser fidedigna. Uma comparação da conversa que realmente teve lugar, aqui transcrita, com a versão apresentada no livro, revela muitas edições, omissões e, pior ainda, adições de coisas que Elvis não diz. Para ilustrar algumas das poucas palavras alteradas que podem mudar por completo o sentido daquilo que se queria dizer, está na página 326 de Elvis: What Happened?, no terceiro parágrafo, que termina com Red West a dizer: “Tens problemas.” Na conversa que teve lugar, West diz: “É tal como dizes, tiveste problemas.” A primeira é acusadora, a última é condescendente. Ao longo da transcrição apresentada no livro encontram-se muitos exemplos de porções omitidas da conversa que apresentam Elvis quer sob uma perspetiva mais favorável ou demonstram concordância ou compreensão por parte de West. Podem entender facilmente porque motivo escolhemos aqui apresentar apenas o texto que conseguimos verificar através da gravação contida na cassete áudio.

Para além de tudo isto, uma vez que grande parte da conversa se concentra sobre o projeto falhado do Presley Center Courts, alguma informação de fundo sobre esse assunto também pode ser útil. Para disponibilizar esse resumo, temos Marti Martin, um associado do Presley Center Courts:

“O Presley Center Courts, formado em abril de 1976 e com sede em Memphis, no Tennessee, foi a primeira aventura comercial pela qual Elvis autorizou a utilização do seu nome e serviu como representante da direção. O Presley Center Courts de Memphis foi o primeiro edifício de raquetebol que se planeava construir por todo o país. Elvis emprestou 1,3 milhões de dólares do National Bank of Commerce, tendo colocado Graceland como garantia colateral para financiar este projeto. O Dr. George Nichopoulos, Joe Esposito e Michael McMahon, foram os outros sócios de Elvis neste negócio. Antes do final de 1976, Elvis saiu da empresa. A Elvis foi-lhe pedido que investisse mais dinheiro e o Dr. Nichopoulous e Joe Esposito viriam posteriormente a processar Elvis por 150.000 dólares.

“Michael MacMahon, vice presidente e diretor geral do Presley Center Courts, contratou os meus serviços para conceber material de merchandising a ser vendido nas lojas desse desporto.”)

RW: Onde é que íamos?
EP:
Tenho a voz tão baixa que até faço o J.D. Sumner parecer um tenor.

RW (ri-se): Ah…
EP:
Até parece que me enfiaram uma Martin (guitarra) pela garganta abaixo.

RW (ri-se): Pois.
EP:
Mas também tenho os dedos com bolhas. Acredita.

RW: Sim, era assim que os meus costumavam ficar quando me sentava para compor canções. Os meus três primeiros... o meu primeiro dedo é grande demais... quer dizer, tenho sempre grandes bolhas nas pontas. Mas caramba, quem me dera só desanuviar a cabeça... acordar, falar sobre... oh, sim.
EP:
Também não estou a funcionar com os motores todos.

RW (ri-se): Bem, tal como disse, tenho um… programa que se está a sair bastante bem (Black Sheep Squadron) e também tenho um papel regular (como Sargento Andy Micklin) na série... deve começar nas próximas três ou quatro semanas, acho eu. E acho que vou ficar a fazer isso.
EP:
Bem, sabes que aquilo que aconteceu foi uma combinação de uma data de coisas que se foram avolumando. Não foi necessariamente nada de pessoal ou nem sequer a porcaria dos processos em tribunal. Foi como um fusível a arder, porque haviam montes de coisas em cima de mim.

RW: Sim, pois.
EP:
E talvez eu tenha perdido a perspetiva de… especialmente de ti, da tua família e disso tudo.

RW: Sim, foi muito frio, El.
EP:
Porque adoro a Pat (West, esposa de Red) e a tua família.


Legenda: Elvis, no casamento de Red West com Pat (1 de julho de 1961).

RW: Bem, tenho muito tempo para pensar. Quer dizer, podia sentar-me aqui e as pessoas podiam vir falar-me dessa porcaria toda. Mas passou-me pela cabeça. E só o que fiz foi tentar, talvez por vezes, proteger-te em demasia. E essa é a verdade, juro por Deus.
EP:
Sim.

RW: E, ah…
EP:
Oh, mas eu sei disso.

RW: Caramba, ali estava eu. Mas isso… que diabo, foi tal como disseste, tiveste problemas.
EP:
Bem, tu sabes como é. É como aquele velhote disse em Cool Hand Luke, foi uma falha em comunicar.

RW: Pois. Bem, esta é a verdade e juro por Deus. Mas neste último ano que passou não comunicámos nada.
EP:
Pois é… tal como disse, foi uma série de coisas. Se pudesse explicar-tas uma a uma, podia mostrar-te os motivos que provocaram este separatismo. Falta de comunicação.

RW: Certo.
EP:
O meu pai estava doente. Bem sabes que esteve praticamente morto. A minha família está toda espalhada pelos Estados Unidos fora e, ah. São a porcaria dos advogados e dos processos, estão a fazer uma tempestade num copo de água.

RW: Pois. Sim, sei que houve momentos duros no meio de tudo isso. Mas só alguns, sabes. Veio um processo e depois toda a gente viu uma oportunidade para fazer o mesmo. Aquilo avolumou-se e toda a gente e mais alguém foi atrás de ti, não é?
EP:
Sim, é isso que quero dizer. Uma pessoa até se safa bem, ou pensa que sim, e o que eles tentam fazer é estabelecer um padrão de insanidade e violência.

RW: Pois.
EP:
Tal como aquela vez na cama… eu a dar tiros àquele candeeiro.

RW: De que falas tu?
EP:
No Hilton Hotel… com uma pistola calibre 2.2.

RW: Oh, sim, bem, bem que éramos conhecidos pelo Grupo dos Selvagens (ri-se).
EP:
Sim, isso é certinho.

RW: Mas, ah.
EP:
Mas sabes bem que os bons velhos tempos continuam a ser um facto.


Legenda: A jogar futebol, em 27 de dezembro de 1956, em Memphis.

RW: Sim, decididamente são um facto e sê-lo-ão sempre. Quer dizer, o que está feito, feito está. Tivemos muitos bons momentos, caramba, durante uns tempos... e foi ficando... tal como disseste, ficou tudo muito sério. E surgiram imensos problemas. Não sei, acho que perdemos a perspetiva das coisas, de muitas das coisas boas, não sei, só que... o divertimento acabou.
EP:
O divertimento deixou de existir, esse é que foi o problema.

RW: Sim.
EP:
Não sei dizer quando foi, não consegui nunca descobrir...

RW: Mas, ah.
EP:
Malditos ginásios de raquetebol..

RW: Sim, passei por lá no outro dia... por um bocado, quando estávamos de passagem. Ainda era o Presley’s Center Court, e depois, mesmo antes de me vir embora...
EP:
Eles vão de lá tirar isso.

RW: Como?
EP:
Eles vão de lá tirar isso.


Legenda: Na Alemanha, em Goethestrasse, 1959.

RW: Já tiraram. Sim, eu ia dizer que quando passámos por lá mesmo antes de irmos embora, não vi lá mais o cartaz.
EP:
Ah, pronto, é que tinha ouvido dizer que ainda estava afixado. Mas fui bem enganado pelas provas para o colocar ali, pois depois eles contrataram os construtores e ficaram presos a um contrato.

RW: Sim.
EP:
Dois ginásios de raquetebol por meio milhão de dólares cada um.

RW: Isso é demasiado dispendioso.
EP:
Mas que porra, homem. O pobre do Joe (Esposito) teve de pedir à mãe dele para hipotecar a casa dela... para pedir um empréstimo sobre a casa dela para conseguir o dinheiro.

RW: Posso dizer-te umas coisas sobre fazer negócios com espertinhos. Eles simplesmente não se ralam... nem que para isso tenhas de hipotecar o traseiro da tua mãe.
EP:
Foi isso que ele teve de fazer.

RW: E o Joe já se conseguiu libertar disso?
EP:
Hã?

RW: O Joe já saiu, ou ainda…?
EP:
Bem, ele está no processo de tentar livrar-se de tudo aquilo.

RW: Pois.
EP:
Sabes que os construtores que foram contratados para construir o raio da coisa são os mesmos que levantaram a lebre por causa de eu ter saído.

RW: Sim.
EP:
Tive de sair porque aquilo estava a atingir umas proporções exageradas. Foi uma tramóia, um negócio mal feito, sabes.

RW: Bem, nunca soube se foi ou não foi. Mas sempre tive a sensação que era.
EP:
Tudo começou de forma muito inocente. Disseram-me uma coisa.

RW: Pois.
EP:
Tal como que não precisava de investir nem um cêntimo. Não entregaria dinheiro nem mais nada.

RW: Sim.
EP:
Bem, pelo menos foi esse o contrato que eu assinei. Pois foi, até falei com o pai sobre isso logo a seguir ele ter saído do hospital. E ainda falámos durante um bom tempo. Sabes, se aquilo desse para ajudar o Joe e o Nick...

RW: Pois.
EP:
… eles até podiam usar o meu nome para...

RW: Bem, eu…
EP:
Porque eu não iria ganhar nada com aquilo..

RW: Certo. Foi apenas algo para os ajudar. Não me parece que Nick conhecesse aquele fulano assim tão bem como isso.
EP:
Também não me parece.

RW: Não, ele foi envolvido sem sequer se ter apercebido. Ele apenas viu uma oportunidade de ganhar dinheiro. E o Joe também. Mas era precisamente desse outro tipo que eu sempre me senti desconfiado.
EP:
Oh, esse filho-da-p…a, não vale nada.

RW: Ah.
EP:
Ontem falei com os meus advogados sobre este assunto do raquetebol. Sabes que o Sr. Davis morreu?

RW: Sim, sei. Vi isso no jornal antes de ter vindo embora.
EP:
E o fulano que ficou no lugar dele... o que começou a acontecer foi que eles começaram a assediar-me por dez, vinte mil.

RW: Começaram a assediar-te com isso?
EP:
Sim.

RW: Bem, pois. Sim, bem... há um padrão.
EP:
Por isso pensei, então, rapazes, vocês também estão a investir esses montantes no negócio? Ah, pois.

RW: Sim (ri-se). Lembro-me que ele até veio numa das tournées connosco.
EP:
Na tournée, a fingir-se interessado nos livros sobre numerologia. Agora encaixa tudo. Mas foi suficientemente esperto para fazer aquilo. Depois, chegou-se à conclusão que eles precisavam de oitenta mil dólares. Eu disse, muito bem, para quê? Para uma secretária.

RW (ri-se): Caramba! Rapaz, malditas secretárias… têm um sindicato ou algo parecido?
EP:
Foi exatamente isso que eu disse. A interrogar-me como é que uma secretária podia custar oitenta mil dólares.

RW: Merda. Não, era mesmo tempo de sair dessa porcaria.
EP:
Tentei lá ficar o máximo que pude para os ajudar.

RW: Pois.
EP:
Não queria estragar-lhes o entusiasmo... ou os sonhos que podiam ter tido.

RW: Só estragar-lhes a secretária (ri-se).
EP:
Sim, a secretária de oitenta mil dólares..

RW: Santo Deus. Quanto é que ia ganhar o presidente da direção?
EP:
Bem, eles mandaram imprimir todos os cartões de visita com o meu nome, a dizer Presidente da Direção. Que diabo, primeiro começou como Presley Center Courts e depois mudaram tudo para Elvis Presley Center Courts sem sequer me terem perguntado nada sobre o assunto.

RW: Hã-ãh, caramba..
EP:
Mandaram fazer aqueles cartões e uma data de porcarias... presidente e vice presidente. Mas nunca vieram ter comigo para falar sobre o assunto.

RW: Ora, bolas, desde que conseguiram ter o teu nome... aquele Mike (McMahon), o fulano que conseguiu ter lá o teu nome. Ouvi dizer que ele foi para Nashville e por onde quer que passasse só dizia, Represento o Sr. Elvis Presley e o sua empresa de raquetebol. Só com o teu nome ele deve muito bem ter conseguido o que queria. Nem sei bem o que estou a tentar dizer... temos de voltar a falar do meu problema. Homem, eu nunca fiz nada disso. Eu só... o velho Red… só tentou fazer um serviço, meu.
EP:
Não, não estava a usar isto como exemplo. Apenas te estava a contar.

RW: Eu sei. Só que... estávamos a falar sobre… não sei de nada desse ginásio de raquetebol. Só sei dos meus problemas.
EP:
Aquilo que começou como uma amizade e um favor transformou-se num projeto de um milhão e trezentos mil dólares.

RW: Pois.
EP:
E sabes quanto tempo é que ia passar até dar lucro? (ri-se).

RW: Sim.
EP:
Depois de investir lá aquele dinheiro.

RW: Sim, lamento que ainda iria levar algum tempo.
EP:
Já ia ser tão velho que teriam de mudar a raquete para um banjo.

RW (ri-se).
EP (ri-se):
Onde é que a bola foi bater?... Estou só a tentar tocar...

RW (ri-se): Já com a tinta a cair das paredes. Ah, que diabo. Pois é, pobre velho Nick (Dr. George Nichopoulos), caramba, ele… toda a gente tentou lucrar com isso, mas esse Nick Chips com quem ele se meteu, bolas, foi um erro. Ele tinha tudo concebido, mas não contou que o vagão do comboio pudesse descarrilar.
EP (ri-se):
Nem sei bem o que se passou... na altura eu estava no hospital.

RW (ri-se).
EP:
Que diabo, eu sentia coisas diferentes. Depois bati no chão, fui até ao fundo. Nick Chips, uma porra. A primeira coisa que me veio à cabeça foi a de um jogador a decidir se havia de comer ou de ganhar dinheiro. Era mais Nick o Grego, sabes, o jogador. É assim que funciona a minha mente louca. Nick Chips, caramba, é óbvio que ele foi enganado.

RW: Pois.
EP:
E a porra daqueles construtores não passam de homens de negócio de corações de pedra.

RW: Ah claro. Olha. Começas a lidar com eles… com um tipo como esse, quero eu dizer… só os dólares é que falam e pronto.
EP:
Pois, mas da forma que as coisas estavam a ir, eles levaram foi o vitelo para o matadouro.

RW: Pois, bem, acabaste por sair… já saíste disso, certo?
EP:
Ainda estou no processo de tentar sair..

RW: Não te censuro, porque é…
EP:
Pois…

RW: Começas a fazer negócios com um grupo de pessoas... se fores tu que conduzes as coisas, sabes do que se passa, mas se meteres mais dois ou três tipos...
EP:
A minha assinatura… depois disso foi como se tivessem todos ficado completamente loucos.


Legenda: Red, oferecendo as costas como "mesa" para Elvis dar autógrafos.

RW: Claro que sim. Sei que foi assim com o Mike..
EP:
O advogado leu-me o contrato onde dizia que se acontecesse alguma coisa eu sairia sempre bem do negócio.

RW: Vês, eles não te disseram...
EP:
Tu sabes bem que eu nem sequer gosto assim tanto de raquetebol.

RW: Pois, é verdade.
EP:
Eu iria sempre sair-me bem. Durante todo o processo. Por isso, quando me vieram com outra conversa, foi novidade para mim.

RW: Pois.
EP:
Descobri só ontem que este tipo, o Mike, estipulou para si mesmo cinquenta mil dólares por ano só de bónus. Ah, o Joe também não sabia nada disto. O Nick também não sabia nada disto. Mas lá estavam os advogados com tudo muito bem explicadinho.

RW: Foi o que eu calculei; este Mike enganou o Nick e toda a gente. Eles não fizeram nada de mal, sabes.
EP:
Sei.

RW: É uma pena, meu, o Nick sempre... sempre pensei que ele fosse mais esperto, e que o Joe fosse mais esperto, mas...
EP:
Não no que toca a negócios.

RW: A mim parece-me que estamos todos embruxados ou algo parecido.
EP:
E o meu ponto de vista foi que eu nunca poderia vir a ter qualquer espécie de lucro com este projeto. Só fiz isto por amizade.

RW: Pois.
EP:
Sabes que não paguei nada. Não me prejudicava em nada. Só estava a ajudar a ideia ir avante. Uns poucos de clubes de raquetebol, um aqui, outro em Nashville, com o meu nome.

RW: Sim.
EP:
Não vi mal nenhum nisso.

RW: Não, realmente…
EP:
Sabes, o documento que eu assinei não referia nada disso.

RW: Sim.
EP:
Por isso o advogado acha que esta porcaria foi lá posta depois de eu o ter assinado. Percebes onde quero chegar?

RW: Sim.
EP:
Porque sabes bem que eu não assinaria nada se soubesse que iria perder dinheiro com esse negócio dos ginásios de raquetebol... por meio milhão de dólares cada.

RW: Pois.
EP:
Isso foi o que mais me surpreendeu. Meio milhão de doláres por um ginásio de raquetebol? Caramba, por esse dinheiro fazia-se muito mais.

RW (ri-se): Ah, caramba (ri-se).
EP:
… só íamos começar por um.

RW (ri-se): Construía-se um por $39.98.
EP
(ri-se).

RW: Bem, só podem ter também querido construir saunas... tudo o que um health club tem ou algo assim. Só podia ser, não custa assim tanto construir a porcaria de um ginásio de raquetebol.
EP:
Não, acho que eles queriam fazer dez campos para jogo em cada metade.

RW: Oh.
EP:
Quer dizer, sim, dez campos, como aqueles que temos no Memphis State.

RW: Bem, isso…
EP:
Mas mesmo assim, fazes isso, mais os balneários femininos e masculinos, não consegues chegar ao meio milhão de dólares.

RW: É muito dinheiro.
EP:
Olha que merda. Mandei construir um aqui... nas traseiras... sabes bem onde é.

RW: Sei.
EP:
E aquele filho da mãe só me custou oitenta mil. E bem sabes como está luxuoso.

RW: Tens toda a razão.
EP:
Só que estas pessoas, foi como disseste, viram a minha assinatura e ficaram loucas.

RW: Sim, senhor. Todos se aproveitaram de algo depois de terem conseguido a tua assinatura. E mais… quando é que o salário deste fulano devia começara a vigorar, era já? Do Mike, da secretária e dessa porcaria toda.
EP:
Sim, era já.

RW: Hum hum. E era suposto seres tu a pagar isso tudo, hein?
EP:
Sim.

RW: Pois. Grande merda.
EP:
É.


Legenda: Elvis, seguido de Joe Esposito e Red West.

RW: Raios. Deves ter de conseguir sair disso.
EP:
Material de merchandising: cartõezinhos, panfletinhos, anunciozinhos, mais isto, mais aquilo. E tudo a ser feito sem o meu conhecimento, sem sequer me terem consultado… sem me terem perguntado nada, entendes?

RW: Caramba.
EP:
Isto acabou por crescer até se transformar num monstro. E nada mais há a dizer.

RW: Tens razão quando dizes isso. A tentarem aproveitar-se de ti. E não te censuro… por tentares sair disso. Mas calculo que toda essa pressão e tudo isso – os processos em tribunal e tudo o mais – também levou ao nosso despedimento. Mas foi um choque para todos nós. O velho Dave (Hebler) estava para aqui. Ficou falido. Bem, ficámos todos falidos. Claro que eu tinha alguns bens. Tive de… vender tudo… vendi a minha casa. Detestei fazer isso, mas quando temos de fazer algo, temos de fazer e pronto.
EP:
Vendeste a tua casa?

RW: Oh, sim, vendi a minha casa, ambos carros, vendi tudo. E o Hebler, está completamente falido. E o Sonny (West) ficou… bem mal… bem, tu sabes, ficámos todos muito mal.
EP:
Que diabo, calculo que realmente não houve um único momento bom.

RW: Pois não.
EP:
Também foi mau para mim.

RW: Sim.
EP:
Nem sequer tinha saído do hospital a tempo de estar a funcionar a 100%.

RW: Sim. Mas, ah.
EP:
O meu pai… quase o perdi. Ele é o meu pai, apesar de tudo.

RW: Sim. Olha, escuta, consigo entender. Mas nós… que diabo, ficámos em estado de choque durante uns tempos. O que é que… o que é que havíamos de fazer, entendes? Mas depois pensámos no assunto, em toda a pressão e tudo o mais e dissemos, bem, ele também deve ter chegado a este ponto. Tu apenas… é como se… quem me dera que, sabes… sempre fomos capazes de falar. Na maior… na maior parte do tempo. Houve alturas em que não fomos capazes, mas se eu tivesse tido notícias tuas, talvez tivesse sido… mais fácil de suportar.
EP:
Bem, a fazer negócios e em coisas dessa natureza, eu não… eu não faço isso.

RW: Oh, referes-te ao nosso despedimento e a isso?
EP:
Sim.

RW: Pois.
EP:
Tive de ir para Palm Springs, analisar e fazer contas sobre os malditos ginásios de raquetebol.

RW: Sim.
EP:
Ainda não estou a ver muito bem.

RW (ri-se): Pois.
EP:
Mas, ah, o Charlie (Hodge) estava a dizer… o Charlie falou contigo e tu achaste que eu estava em risco.

RW: Hã hã. Bem, eu pensei… ouvi dizer, sabes, ouvi dizer…
EP:
Eu estava em casa do meu pai, a analisar aqueles números todos.

RW: Sim.
EP:
Tu sabes… se eu quisesse saber de alguma coisa, não faria isso. Iria por outra via.

RW: Caramba, sabes bem como toda a gente fica paranóica depois de algo assim.
EP:
Ah, claro.

RW: E eu… não sei porquê…
EP:
Oh, claro, como estar sempre a olhar sobre o ombro sem saber quem diabo será.

RW: Isso.
EP:
Independentemente do que quer que seja.

RW: Sim. Mas seja como for, tu sabes que agora está tudo feito… acho que agora, só nos resta isso, porque, ah…
EP:
Como vai a Pat e os miúdos?

RW: Estão todos bem. Estão a aguentar-se até eu arranjar alguma coisa para fazer.
EP:
Bom.

RW: Mas tem sido muito duro.
EP:
Sim, senti-me muito desiludido com o Hebler. Ele enganou-me muito bem. Sabes, pensava que ele era… um mal entendido.

RW (ri-se): Ah, isso… que fez ele?
EP:
Hã?

RW: Que fez ele… acerca disso?
EP:
Bem, ele apenas… dizia-me umas coisinhas… contava-me das pessoas que ele detestava.

RW (ri-se): Que ele detestava?
EP:
Sim.

RW: Que diabo.
EP:
Sabes que isto aconteceu durante um período de dois anos.

RW: Sim.
EP:
Só que… o Ed Parker disse-me quando o contratei… disse-me para o manter à distância. Na altura continuei sem perceber… que burro fui.

RW: Pois. Bem, eu… não sei mesmo do que é que estás a falar.
EP:
Bem, é difícil de explicar. Não me parece que ele gostasse fosse de quem fosse deste grupo, talvez com exceção do Dean (Nichopoulos).

RW: Sim. Bem, eu…
EP:
Acho que me transformei num símbolo de dólar para ele, Red, acho que… ao longo do processo ele perdeu a noção de Elvis… primeiro. Isso pode acontecer com facilidade.

RW: Oh, calculo que… sim. Ah.
EP:
E sabes… bem, isso aconteceu, caramba. Transformei-me num objeto, não numa pessoa.

RW: Sim.
EP:
Mas sabes que não sou aquele sinal, quer dizer aquele sinal de estrada (no Elvis Presley Boulevard) que fica ali ao fundo da rua. Não sou aquela imagem que foi construída, sou eu mesmo.

RW: Sim. Bem, sempre foi assim que eu, tal como sabes, tentei pensar a respeito de ti.
EP:
Mas estás tão errado numa coisa e escuta-me, não me fiques paranóico, porque estou apenas a falar contigo como amigo agora, estamos numa linha privada e já não me resta ninguém.

RW: Certo.
EP:
Não estou mal nem por sombras. Bem pelo contrário, nunca estive em melhores condições em toda a minha vida.

RW: Bem, do que eu falava há bocado… é que tu andavas bem mal… era disso que eu falava.
EP:
Bem, como sabes, passei por um divórcio. Tu sabes, tu estavas lá.

RW: Sim. É isso que estou a dizer.
EP:
E aquela cena do casamento, sabes… a cena do casamento (não incluir Red na cerimónia do seu casamento com Priscilla), não tive nada a ver com isso. Foi algo que ficou ao lado. Eu nem sequer me apercebi de quem lá estava, estávamos todos apinhados naquela salinha do tamanho de uma casa de banho com um Juiz do Tribunal (do Nevada, David Zenoff). Foi ali que aconteceu tudo tão depressa que nem sequer me consegui aperceber que estava casado.

RW: Oh, sim, estás a falar do teu casamento. Pois.
EP:
Sim.


Legenda: Red, acompanhando Elvis no evento que o elegeu um dos Dez Jovens Mais Destacados da América.

RW: Certo. Bem, sabes, tal como não pensaste nessas coisas na devida altura… mais uma vez… ah, é a velha… eu estava contigo e, de repente, fui impedido e fui informado de que não podia entrar.
EP:
Na altura apercebi-me disso, sabes. Na altura apercebi-me. Mas, sabes, não foi decisão minha.

RW: Certo.
EP:
Não foi decisão minha.

RW: Sabes que pensei que fosse o Coronel e…
EP:
Foi uma coisa do tipo de ter passado ao lado. Não tive nada a ver com o assunto. De repente, estava a casar-me.

RW: Sim.
EP:
E tu sabes como é.

RW: Ah.
EP:
Quando estás a ter essa experiência, só pensas numa coisa.

RW: Pois.
EP
(ri-se).

RW: Pois, sim. Bem, consigo entender isso. Isso já foi há muito tempo. Era… era sobre isso que eu estava a falar com o Charlie, mas voltemos até aos últimos dois, três anos. Encaremos a realidade, homem, não te tens divertido. Só pareces estar… a trabalhar, fazes o teu trabalho e depois, ah…
EP:
Eu gosto do meu trabalho.

RW: Sim, eu sei disso. É a única altura em que realmente te vemos… eu… nunca mais te vi sem ser a trabalhar. No resto do tempo estávamos só… nem sei.
EP:
Divertimo-nos bastante em Vail.

RW: Oh, sim, divertimo-nos em Vail. Foi… caramba, foi um dos poucos momentos nestes últimos anos em que realmente regressámos… ao que quer que fosse… soubemos como nos divertir. E realmente divertimo-nos todos muito.
EP:
Eu sei que me diverti.

RW: E eu sei que me diverti também. Por isso… isso era algo de que estávamos sempre à espera para fugir de tudo o resto.
EP:
Sim… sabes… não, não faz mal, porque eles querem que eu arranje uma casa lá para cima.

RW: Sim.
EP:
E… tudo o mais, ando com agentes imobiliários a tratar disso.

RW: Pois. Não, não te censuro. Ei, mas podes sempre ir até lá acima e alugar os espaços.
EP:
Sim, exatamente.

RW: Mas, ah… ah, não sei… não queria ficar sério demais, sabes, é que já passou tanto tempo desde a última vez que falei contigo. Mas vou ficar mais sério com esta conversa…
EP:
É sobre…


Legenda: Dave Hebler, Red West, Elvis e Jerry Schilling (de costas) - 1975.

RW: Estávamos todos… estávamos preocupados contigo. Sempre me preocupei contigo, sabes, por tomares certas coisas. Pensei que isso, tu sabes…
EP:
Preocupaste-te tanto comigo que tentaste dar a volta e tentaste magoar-me. Mas, sabes, eu sei o que isso é.

RW: Bem, só o fiz depois de me teres magoado a mim primeiro. Já me tinhas magoado primeiro. Magoaste-me… e à minha família, bastante, sabes, abandonaste-nos ao Deus dará, por isso não vamos falar sobre o facto de eu te ter magoado.
EP:
Bem, estavam a acontecer coisas das quais tu não tinhas conhecimento.

RW: Pois, mas só o que sabíamos era que eu estava abandonado e não conseguia entender porquê.
EP:
Só sei que havia muita fricção dentro do grupo. As vibrações eram tão más que as pessoas até começaram a mudar-se e tudo.

RW: Sim, bem, isso também é verdade.
EP:
Por isso quem sabe o que diabo teriam elas ouvido ou o que lhe teriam dito. Só sei que… ficou uma situação tão, mas tão tensa… quando deveria ter sido algo divertido e descontraído.

RW: Pois.
EP:
Algo correu mal.

RW: Sim.
EP:
E isso, mais o assunto dos ginásios de raquetebol, tudo o resto e as questões pessoais. Chegámos ao ponto de ter de cortar nas despesas.

RW: E cortaste. Bem.
EP:
Fiquei com a sensação…

RW: Fizeste o que achaste que tinhas de fazer… disse ao teu pai, sabes… uma pessoa tem de fazer o que tem de fazer. Mas se tens de reduzir despesas despedindo-me a mim, sabes, isso é um pouco estranho para mim. Pareceu-me que podias… ter despedido outra pessoa qualquer. Achava que eu era importante para a organização e sinto-me feliz por descobrir que não era. Depois eu… ainda me resta alguma vida e vou… vou apreciá-la. E posso… ainda sou suficientemente novo para encontrar outra coisa para fazer, sabes.
EP:
Oh, sim.

RW: Mas isso foi… reduzir as despesas… não consegui entender isso. Todos os outros… todos os outros tipos… caramba, eu pensava… que era mais importante para a organização do que eles eram, mas calculo que não era. Mas ainda bem que descobri isso. E então?
EP:
Bem, é uma situação muito infeliz. Só agora é que estamos a conseguir voltar a pôr-nos de pé. O meu pai perdeu (peso)… chegou aos 74 kg.

RW: Referes-te a agora?
EP:
Ouvi dizer que já conseguiu chegar aos 80. Mas aquilo chocou-me, deu-me um susto de morte. Porque sabes como me sinto, sabes bem como te sentias em relação ao teu pai.

RW: Sim. É verdade.
EP:
Bem, foi lançada a desconfiança entre este grupo. Eu não conseguia perceber qual era a fonte. Desconfiança. Tal como aquela canção que fizemos, “Não podemos continuar juntos com Mentes Desconfiadas”.

RW: Pois.
EP: Talvez eu tenha agido de forma muito abrupta – sou o primeiro a admiti-lo – e sem pensar.

RW: Sim. Bem, é que…
EP:
Sabes que Sonny nunca estava por perto, não sabes?

RW: Sei.
EP:
Bem sabes que falámos todos sobre isso.

RW: Sim.
EP:
Não tenho nada contra o Sonny. O Hebler tentou conquistar o seu caminho à força, sabes, passar por cima de tudo…

RW: Hã hã.
EP:
… com táticas… com táticas de medo…

RW: Sim.
EP:…
com alguns dos rapazes mais novos.

RW: Pois.
EP:
Eles todos perguntavam pelos nomes e coisas assim, e eles nunca… nunca conseguiram obter uma resposta concreta, ficavam só… sem saber sempre que tentavam descobrir.

RW: Sim.
EP:
E foi só isso que eu precisei de saber. Sabes que agora penso no passado, de quando tinha 21 anos de idade, caramba, até parece que nessa altura a minha mente foi espalhada pelos quatro ventos.

RW: Sim. Eu sei.
EP:
Sem um tipo de orientação, algumas coisas não teriam sido feitas. Sabes, coisinhas que não teriam sido feitas. Sabes como eles treinam as pessoas na tropa – regimentação – fazer as mesmas coisas todos os dias e nós sabíamos, por Deus, tu também o fizeste… na tropa… toda a gente pergunta se eles realmente serviram com legitimidade… isso e, santo Deus, às sete da manhã tínhamos de fazer isto, às três tínhamos de fazer aquilo, sabes como é.

RW: Sim.
EP:
E fazem-no por repetição.

RW: Claro.
EP:
É assim que são treinados.

RW: Sim.
EP:
E toda aquela energia da juventude deles, sem uma orientação adequada (assobia), é desperdiçada.

RW: Sim.
EP:
Por isso, o único motivo… apenas senti que tinha de falar contigo para tentares entender o meu ponto de vista.

RW: Pois. Bem, agradeço isso, sabes. É o que… é o que desejo que tivéssemos feito desde o início, sabes. Talvez eu tivesse entendido… um pouco melhor. Mas, o que está feito, feito está. E tenho de seguir a partir daí. Quer dizer, acredita em mim quando te digo, que te desejo toda a sorte, espero que fiques bem, sabes, que te aguentes aí, bem no topo, durante mais quarenta anos… mais quarenta anos, homem. Quero mesmo isto. Desejo isto do fundo do meu coração.
EP:
Bem, estou a trabalhar nesse sentido.

RW: Mas, E, gostava que procurasses ajuda para isso. E já há muito tempo que não tens andado saudável.
EP:
Ai, isso é que tenho.

RW: Não tens, não.
EP:
Tenho, sim.

RW: Pronto, okay, tu dizes isso, mas…
EP:
Há três semanas fiz um exame físico completo, dos pés à cabeça.


Legenda: Elvis, Joe Esposito, Sonny West e Red West - 1975.

RW: Tudo bem. Então fico feliz por saber que estás saudável. E, ah…
EP:
Espera aí um pouco. Foi a seguradora do Lloyd’s of London que o exigiu.

RW: Bem, então… então não tenho de me preocupar com isso.
EP:
Pois. Aquela coisa que eu tive, aquele bloqueio intestinal, corrigiu-se sozinho.

RW: Graças a Deus. Ainda bem.
EP:
Fiz uma dieta maluca de líquidos.

RW: Sim.
EP:
Mas aquele intestino lá de baixo precisa de ter matéria.

RW: Sim. Sim, falámos nisso.
EP:
Fiz uma dieta de líquidos durante vinte dias e ouvi dizer que isso foi mais um erro (ri-se). Veio-se a descobrir que o intestino grosso não tinha nada com que trabalhar, por isso, o que isso fez foi com que deixasse de trabalhar. E depois não paro de ouvir falar nessa merda de estar gordo e na meia idade.

RW: Não, não. Bem, eu sabia… nós sabíamos… que… que tu não eras… bem (ri-se). Sempre comeste muito, mas não eras… não eras gordo como as pessoas gordas são.
EP:
Sim, bem, eu queimo a gordura… queimo a gordura.

RW: Mas podíamos ver que era algo mais que isso. E é a isso que me refiro, tu não estavas saudável. E foi assim que tu… algo estava mal dentro de ti. E é sobre isso que tenho tentado… quando falei contigo sobre isto, ficavas sempre danado, tal como começaste a ficar… ainda há pouco. Não, não me querias ouvir. E é disso que estou a falar, homem. Tu estavas… havia algo de errado contigo no teu interior. Não sabíamos que era… preocupávamo-nos com isso, mas não sabíamos o que era. Sabíamos que não era da gordura. Era outra coisa. E tu apenas…
EP:
Ora, isso, pensava que vos tinha dito a todos… pensava que vos tinha dito que era do intestino grosso. Lembras-te como era suposto eu ter feito uma cirurgia…

RW: Sim.
EP:
… e tirar parte do intestino.

RW: Sim. Certo. Sim, eu estava lá. Lembro-me quando eles queriam fazer isso. Mas eu só estava a dizer…
EP:
E isso estava a pôr-me maluco, porque eu não sabia o que era.

RW: Bem, fico feliz em saber que já se resolveu. Fico mesmo.
EP:
Já há muito tempo que está resolvido. Foi apenas uma falha em comunicar, não foi?

RW: Sim. Bem.
EP:
O que se passa entre nós é uma falha de comunicação.

RW (ri-se): Sim. Eu…
EP:
Sabes aquela canção que o Roy Hamilton fez, Understanding Solves All Problems (A Compreensão Resolve Todos os Problemas). (Talvez tenha escapado a Elvis que este verso exato, “understanding solves all problems”, faz parte da sua própria gravação de One Sided Love Affair).

RW: Sim. É verdade
EP:
Essa foi uma canção difícil.

RW: Não tivemos uma grande compreensão durante muito tempo.
EP:
Bem, não sei bem se foi entre tu e eu ou se foi mais algo motivado por outra pessoa qualquer. Tu sabes, as vibrações negativas.

RW: Certo. Também podia muito bem ser isso. Eu… eu não estou muito dentro dessas coisas psíquicas.
EP:
Bem, eu também não, mas sei que estamos constantemente a enviar e a receber.

RW: Sim.
EP:
A toda a hora.

RW: Certo.
EP:
Positivo e negativo.

RW: Sim, falámos… chegámos a falar sobre isso. As mentes… se uma pessoa consegue pôr uma foto no ar, então calculo que também conseguimos colocar um pensamento no ar. Por isso…
EP:
Então era por isso que eu estava a sentir as coisas negativas e não conseguia perceber exatamente de onde vinham.

RW: Certo.
EP:
Atingi o ponto de saturação, e tive esperanças que vocês entendessem. Era apenas uma coisa temporária.


RW: Pois. Bem.
EP:
Foi só o que foi, não sentia que pudesse comunicar fosse com quem fosse.

RW: Sim.
EP:
Senti-me terrivelmente sozinho. Sabes como é o número oito?

RW: Sim.
EP:
Aquilo que diz que são pessoas intensamente solitárias no seu íntimo. Por esse motivo sentem-se solitários, mas na realidade têm corações de manteiga perante os oprimidos.

RW: Sim.
EP:
Mas escondem os seus sentimentos na vida e fazem apenas o que lhes apetece.

RW: Certo.
EP:
Bem, eu sou um número oito e tu também és.

RW: Sim, isso é verdade. E tem sido solitário (ri-se). Tem sido muito solitário, homem, acredita. Tem sido simplesmente assustador.
EP:
Sim, posso ver isso.

RW: Mas é algo que… ah, eu… tenho idade suficiente para me endireitar na vida, caramba. É apenas mais um… mais outro degrau ao longo do caminho, sabes. E apenas tenho de… aprender a lidar com isto e tentar fazer outra coisa qualquer. Mas que posso eu dizer? Não quero, sabes, sentir pena de mim mesmo. Sou um homem adulto, posso… posso fazer outra coisa qualquer… há outras coisas. Mas tal como disseste, houve aqui uma falha de comunicação, pois talvez eu não estivesse tempo suficiente numa sala quando querias falar com alguém, ou algo assim.
EP:
Bem, sim, talvez tudo isso. Talvez tenha sido assim que eu me tenha sentido. Talvez eu tenha estado ausente e estivesse a ouvir as coisas com pouca atenção.

RW: Sim.
EP:
Mas fiquei intrigado, disseste depois de um concerto (que eu)… estava gordo, ou algo parecido, ao Charlie.

RW: Não te estou a ouvir, E, desculpa.
EP:
Estragaste tudo.

RW: Sim, bem…
EP:
Porque não estou gordo. Tenho uma filha e uma vida.

RW: Sim.
EP:
Tu sabes.

RW: Sim.
EP:
Que pode ganhar um homem se conquista o mundo, mas perde a sua própria alma?

RW: Certo.
EP:
Adoro cantar.

RW: Sim.
EP:
É o que faço desde que tinha dois anos de idade.

RW: Sim. Eu sei.
EP:
Sabes que estivemos aqui sentados, a tocar guitarras e tudo o mais, a cantar velhas canções: Love is a Many-Splendored Thing. E, sabes? Eu e o Charlie falámos sobre aquela parte em que cantamos juntos… e falhámos a cantar juntos (ri-se).

RW: Pois. Bem, que posso eu dizer? Tenho saudades de cantarmos juntos (ri-se), tu sabes. É assim que sempre vai ser.
EP
(ri-se): Bem, escuta, cuida bem de ti e da tua família. E se precisares de mim seja para o que for, sentir-me-ei mais do que feliz em ajudar.

RW: Agradeço isso. Aprecio muito isso.
EP:
Estou a falar a sério. Não precisamos de publicar a porcaria desse artigo, nem nenhuma dessa merda de que ouvi falar. Só ouvi bocadinhos aqui e ali. Não sei o que é… estava em tournée e tudo. Só ouvi partes. Porque nunca me sentei com ninguém que me tivesse exposto a situação nem nada. Nem sei do que estou a falar. Só sei que te conheço como pessoa, e à Pat, e se houver alguma coisa que eu possa fazer, qualquer forma de arranjar um emprego ou algo mais, diz-me. Ainda aqui estou, filho.

RW: Bem, fico-te grato por isso e vou dizer à Pat o que disseste e ela vai sentir-se melhor. Ela sentiu-se magoada, sabes, não conseguiu entender, os meus filhos, principalmente os meus filhos… não conseguimos entender.
EP:
Bem vês, todos nós ficámos magoados.

RW: Hã?
EP:
Todos nós ficámos magoados.

RW: Pois.
EP:
De maneiras diferentes. É como aquela canção, Desiderata. “Listen to the dull and the ignorant for they too have their story” (“Escuta os aborrecidos e os ignorantes, pois também eles têm a sua história”).

RW: Certo.
EP:
E também foi o Hank Williams que escreveu: “You never walked in that man’s shoes and saw things through his eyes” (“Nunca caminhaste nos sapatos daquele homem ou viste as coisas através dos seus olhos”).

RW: Certo. É verdade.
EP:
Por isso, sabes, depois de analisar toda a situação, consigo ver. Consigo ver com toda a clareza. Por isso eu digo para dispores de mim seja no que for.

RW: Sim.
EP:
Sentir-me-ei mais do que feliz.

RW: Okay, eu realmente… fico-te grato por isso. E ah…
EP:
Cuida de ti.

RW: Okay. E se… deixa-me dizer-te mais uma coisa antes de desligar. Se toda a gente anda preocupada com o livro, diz-lhes para não se preocuparem, homem, porque…
EP:
Oh, eles não estão preocupados…

RW: Quer dizer… também me refiro a ti… ah, estamos a escrever sobre as coisas boas, Elvis… sobre as pessoas…
EP
: Preocupado com o livro… não… não me parece.

RW: Okay.
EP:
Não… não da minha parte.

RW: Okay, ainda bem. Porque fiquei sem nada. Fiquei falido. E fizeram-me uma proposta para escrever olivro. Disse que o escrevia se pudesse incluir tudo isso, desde o primeiro dia, todos os bons… bons velhos tempos.
EP:
Sim.

RW: Ele disse-me que podia ser. Por isso…
EP:
Tu fazes o que tens de fazer.

RW: Está bem.
EP:
Só quero que tu e a Pat saibam que ainda aqui estou.

RW: Certo. Agradeço. E cuida de ti.
EP:
Certo. Tu também.

RW: Está bem, adeus.

Nota: Aconselha-se a leitura da entrevista de Red West, dada em 03 de novembro de 1999.

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