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QUANDO NOS CONHECEMOS, PARTE 1

Tinha chegado de avião a Vegas para me juntar ao espetáculo de Elvis em 16 de agosto de 1970 (estranho, não é? Uns auspiciosos 7 anos certinhos até à morte de Elvis) depois de lhe ter sido recomendada por Jackie Allen (soprano de topo de Los Angeles com quem cantei “voz alta” nos Ray Coniff Singers, Johnny Mann Singers e em muitas outras sessões de estúdio). Ela recomendou-me a Hugh Jarrett, um dos elementos originais dos Jordanaires e depois de se encontrar com ele, ele recomendou-me a Elvis. Da mesma forma, umas quantas de pessoas a quem Elvis tinha telefonado enquanto andava à procura de uma soprano (a quem ele chamava “cantora de voz alta”) me recomendaram. Elvis precisava de alguém para ocupar o lugar de Millie Kirkham, que precisou de tirar um tempo de folga para fazer uma cirurgia. Eu já tinha passado muito tempo a construir a minha carreira, estava finalmente feliz por estar a fazer trabalho em estúdio, em programas televisivos e, mais importante para mim... de NÃO TER NUNCA mais de voltar a viajar. Não, senhor! Não mais “andar na estrada, a não ser que fosse de férias!” Estava bem estabelecida em Los Angeles, a viver bem, a fazer o que gostava, estava feliz, financeiramente independente, tinha o meu pequeno “rancho” com cavalos de exibição e corrida e animais de várias espécies que adorava e também tinha finalmente conseguido alugar um apartamento para o caso de ter alguém a ligar-me à última da hora para fazer uma sessão de que não estivesse à espera. Se uma pessoa trabalha “à chamada”, bem que pode estar marcado para trabalhar apenas às “10 horas”, receber uma mensagem da Call Nina (serviço de mensagens para cantores de estúdio) para por favor estar noutra sessão às 14h, 18h ou 22h00 (que podia durar até às 02h da madrugada).

Devo dizer que tinha excelentes colegas de trabalho, como Orriel Smith e Billie Barnum que, no início da minha carreira em estúdio, me permitiram ficar em suas casas durante dois ou três dias enquanto fazia gravações para programas televisivos. Como nos divertíamos naquele tempo. Lembrem-se, enquanto leem isto: eu NÃO era uma fã, até nem sequer gostava dele até o ouvir cantar It’s Now Or Never e pensei, em adolescente, “Hmmm... talvez este tipo seja mais do que aquilo que pensei.” Também não sabia NADA a respeito dele. Estava num círculo musical completamente diferente.... clássico, música sagrada e, basicamente, era uma snob da música. Até me senti bastante envergonhada de ir trabalhar com ele e cheguei a dizer às poucas pessoas que sabiam onde iria estar nas duas semanas seguintes para não mencionarem a ninguém o que estava a fazer. Esta é a verdade! Agora acredito, quando Elvis e eu falamos mais tarde sobre isto, que Não Era Suposto eu Ser uma Fã e Não Era Suposto eu Saber quem ele realmente era, nem tão pouco ouvir a grandeza da sua voz e a sua capacidade de interpretar qualquer canção de qualquer género até esta altura.

Cheguei ao “então chamado” International Hotel para assistir a uma cena espantosa. Mal podia passar pelas portas da frente, devido aos montes de pessoas que vinham de todos os países que poderíamos imaginar. Havia uma atmosfera tipo “carnaval” e as pessoas estavam histéricas com antecipação por “algo”. Levei quase 2 horas a conseguir uma linha e fazer uma chamada para ligar a Felton Jarvis, o produtor de Elvis, o homem quem o Sr. Tom Diskin (o braço direito do Coronel Parker) me disse que tinha de contactar. “Mas o que se passa?” pensei. Já tinha atuado em Vegas muitas vezes antes com artistas diferentes, mas isto era muito, MUITO diferente. Às 14h00, uma fila de pessoas com 4 ou 5 pessoas de largura percorria o casino inteiro, a toda a volta, ansiosas para obter um bom lugar. Tinham estado na fila a noite inteira e todo o dia, e tinha vindo de “todos os locais da terra” para conseguir um vislumbre de um homem pelo qual esperaram ver durante 20 anos. Literalmente tive de empurrar e furar para conseguir avançar alguns passos por entre a multidão.

Quando finalmente Felton me conseguiu alcançar no lobby, levou-me através da cozinha, por corredores estranhos, servindo-se de elevadores de serviço (nem pensar ser possível usar os elevadores regulares). Passamos por várias passagens secretas e depois levou-me a conhecer o Coronel no seu quarto de hotel. Que “gozo”. Ri-me tanto a partir do momento em que conheci este homem, vestido como um “circense”, a falar com um sotaque me pareceu ser alemão (mais tarde descobri que era holandês). Deu-me as boas vindas de braços abertos, pôs-me um chapéu carnavalesco na cabeça e depois disse a toda a gente presente no quarto: “O feno para os cavalos acabou de entrar!” Estou a chorar de tanto rir agora, só de achar o quão hilariante aquilo foi. Depois... “ninguém lhe responde”... notei eu. Os olhos brilhantes dele fixaram os meus, eu estava a rir-me e ele ergueu a sua bengala e aumentou um pouco o volume da voz e desta vez perguntou, “O feno para os cavalos acabou de entrar?” Soube naquele momento que gostava deste homem. Ele era completamente “absurdo”, como eu tinha sido toda a minha vida.

Felton disse, “Okay, Kathy, lá vamos nós. Estas são as músicas que tens de ouvir. Oh! Deixa-me levar-te o gravador e posso levar-te alguns álbuns?” Mal conseguia espreitar por cima do monte, pois era quase tão alto como o Monumento de Washington, pensei. “Oh... é suposto eu ouvir isto tudo? Esta noite??” Felton replicou, “O máximo que puderes. Ele gravou mais de 600 canções e pode cantar qualquer uma que lhe apeteça. Também, tens aqui um livro com o alinhamento básico do espetáculo, folhas com letras de canções, canções onde é necessária uma voz soprano que era o que a Millie fazia, mas faz o que puderes.” Este, ah... ALINHAMENTO BÁSICO... eram as possibilidades para os números de abertura, as possibilidades do meio do espetáculo e as possibilidades do final do concerto. Bem... agora podia ver porque motivo um dos requisitos para este trabalho era ser capaz de “improvisar”, criar, seguir e juntar-me a cantar como parte de um grupo... Acrescentar uma nota mais aguda aqui e acolá, ou acrescentar uma parte mais alta quando o grupo estiver a cantar. “Graças a Deus que isto é só durante duas semanas! Mas... não... quando começar a ambientar-me a isto, já terá terminado,” disse para mim mesma.

Felton depositou-me e ao gravador com o que parecia ser metade do conteúdo de uma das lojas de discos do meu pai em Abilene, no Texas, no meu quarto de hotel e disse, “Hoje ouve só isto, amanhã levo-te a ver os dois concertos da noite comigo, depois vais cantar na noite seguinte. Se precisares de alguma coisa, telefona-me”. (Bem, realmente precisei de algumas coisas... mas não consegui arranjar nenhuma telefonista que me fizesse a chamada. Tentei encomendar o serviço de quartos para poder ouvir as canções enquanto comia mas, é claro, também não consegui ligar). Tentei ir até lá abaixo à cafetaria, o que finalmente consegui, fora de horas, mas as filas em todas as salas de jantar no hotel inteiro eram imensas. Escutei e olhei para as folhas com as letras das canções dentro da minha grande pasta negra enquanto me sentava no chão ao lado do gravador. “Isto vai explodir tudo... se conseguir ler todas estas letras, já vai ser uma sorte, quanto mais estudá-las...?... Oh, Deus... será isto uma pasta com letras de músicas ou o “Guerra e Paz” de Tolstoy!

Fiz o que pude naquela noite e no dia seguinte, esperando ansiosamente o telefonema de Felton para me juntar a ele para ir ver/ouvir o espetáculo. Veio buscar-me por volta das 19h00, antes do concerto das 20h00 e sentamo-nos lá baixo no corredor, ao lado do elevador e perto dos camarins. Ele estava a explicar-me tudo e mais alguma coisa de que se conseguia lembrar quando as portas dos elevadores à minha esquerda se abriram. Continuei a escutar Felton enquanto um “motociclista” saiu do elevador com outro homem (acho que era Sonny West). Olhei para este homem muito alto com um casaco de cabedal preto vestido, o cabelo todo despenteado pelo vento, óculos de cor de caramelo/laranja, botas de motociclista e calças cor de caramelo que ele usava acima do tornozelo (como era o estilo nos anos 60/70). “Os Hell’s Angels também estão na cidade?” pensei. Olhei rapidamente de volta para Felton e continuei a nossa conversa enquanto este jovem motociclista se limitou a ficar ali de pé, a olhar, como se estivesse à espera para falar. Bati com a ponta de um pé em Felton. “OH!” Felton agarrou-me pelo cotovelo e incentivou-me a pôr-me de pé. “Elvis! Kathy, este é o Elvis. Elvis… esta é a Kathy Westmoreland, a tua nova cantora soprano.”

Olhei para cima, para ele e não consegui ver-lhe os olhos, mas apertamos as mãos, enquanto eu tentava ver se ele sequer tinha olhos por trás dos óculos. Ele começou a sorrir, depois deu uma pequena risada, obviamente a rir-se da minha baixa estatura... 1,55m, e fez um gesto com a sua mão, para mostrar que ambos estávamos a usar a invulgar cor de caramelo. “Olá, Kathy, muito prazer em conhecer-te.” Eu disse, “Prazer em conhecê-lo também,” suponho, ou algo parecido, enquanto ele dizia, “Aprecia o concerto esta noite.”

Felton levou-me pelo braço para irmos para o Palco Esquerdo, e assim poder subirmos as escadas até à bancada e à cabine de som, mas ouvi algo, então olhei rapidamente para ver Elvis, o Motociclista Sem Olhos, ainda ali parado, de pernas abertas, como se quisesse dizer alguma coisa. “Felton? Acho que ele precisa de ti para alguma coisa.” Felton olhou para trás, depois disse, “Não, é melhor irmos para cima,” enquanto que o homem que estava com Elvis lhe pôs uma mão na cabeça e outra num ombro e literalmente o empurrou para dentro do seu camarim. Se bem que Elvis não tenha ido para o palco até serem 21h, depois das atuações das Sweet Inspirations e do comediante, tinha de se preparar para a atuação. Sim, era “HORA DO ESPETÁCULO”, senhoras e senhores. Um espetáculo como nunca tinha visto na terra antes, nem depois... nem nas nossas vidas, pelo menos. O Maior Espetáculo na Terra estava prestes a começar.  

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