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QUANDO NOS CONHECEMOS, PARTE 2

Felton e eu sentamo-nos nos nossos lugares, no centro do camarote. “É engraçado como as pessoas se querem sentar à frente, quando o melhor som e perspetiva é sempre no centro do camarote,” pensei. Mas não estavam ali para ouvir. Estavam ali para ver e, com sorte, tocar ou beijar o seu herói.

Era a maior sala de espetáculos em Vegas na altura (sentava 1.800 pessoas, mas mais de 2.000 precisavam de ser bem apertadas para poder acomodar todas as que vinham para ver e ouvir o homem que tinha mudado o mundo sob todos os aspetos. Felton disse-me que era possível chegar a meter lá dentro 2.300 pessoas). E ainda haviam milhares de pessoas alinhadas em filas no lobby e no exterior do hotel, à espera pelo concerto da meia noite, com esperanças de conseguir entrar e rezando para ter bons lugares se e quando conseguissem entrar.

A sala parecia estar a mexer-se, enquanto o ar frio do ar condicionado criava curvas feitas de nuvens de fumo de cigarros, em cinza esbranquiçado. Ainda consigo sentir o cheiro dessa mistura agora; ar super gelado e fumo de cigarros que perpassava em todo o hotel, em todos os corredores, em todos os quartos. As mesas estavam alinhadas de forma perpendicular com o palco, em filas extremamente apertadas, para o jantar. Os que estavam sentados lá à frente, tinham de visualizar o palco com as cabeças viradas. O concerto das 20h00 era o “espetáculo do jantar”. Enquanto estava sentada, à espera que o espetáculo começasse, observei uma variedade de empregados de mesa, a lutar para passar por entre as passagens quase inexistentes e nas posições mais esquisitas, enquanto serviam os pratos para o jantar e se certificavam de que existia uma garrafa de champanhe sempre cheia em cada mesa, enchendo os copos com bebidas, água, ou café, limpando todos os cinzeiros. A mim, estes empregados de mesa, pareciam-me autênticos contorcionistas... que, enquanto cumpriam com os seus deveres, ainda empilhavam carradas de pratos vazios nas mãos. “Uau,” pensei. “Só esta vista já vale o preço do bilhete.” Como se o barulho dos pratos a bater uns nos outros não fosse suficiente, a multidão esperava tão impacientemente pelo concerto que, na realidade, gritavam uns com os outros e riam-se de forma anormal. Era Barulhento. Muito Barulhento. Os meus ouvidos sensíveis já estavam incomodados e isto provaria não ser nada… nada… comparado com o que seria quando o espetáculo começou e depois Realmente NADA comparado com a entrada de Elvis, às 21h00.

Abri a minha pasta com o “alinhamento”, as folhas das letras das canções e tinha a caneta pronta para tirar apontamentos quando pudesse, para sublinhar letras que precisava de aprender ou, pelo menos, de me familiarizar com, assim como os pontos em que Millie cantava um “obligato” ou acrescentava uma melodia. “Aha!” pensei. “Amanhã à noite VOU saber o que fazer quando tiver de cantar.” Com todos os espetáculos em que tinha participado antes, toda esta preparação teria tido lugar durante os ensaios. Remexi-me um pouco no meu lugar quando pudemos todos ouvir os elementos da orquestra a ocupar os seus lugares e vimos as cortinas a abanarem com o movimento. As cortinas começaram a afastar-se, depois a enrolar-se para cima para revelar um som e uma vista maravilhosos. O melhor grupo de música gospel feminino do mundo na história da música. O motivo porque então e ainda hoje em dia, cada cantor tem três ou quatro cantores a seu lado, as raparigas que criaram o “Ah Oo” e outras inserções engenhosas e brilhantes, assim como inserções vocais... as SWEET INSPIRATIONS. Movimentavam-se com roupas deslumbrantes e posso muito bem ter dito em voz alta, “Meu Deus, elas estão a dançar enquanto cantam, não gritam, mas cantam bem alto... e, ao mesmo tempo, harmonizam numa única voz! Incrível. Este é o grupo com as vozes mais poderosas e ricas que alguma vez ouvi na vida.” Ter-me-ia eu sentido deslumbrada com o seu génio antes? Bem... isto ia muito  para além disso, tal como a maior parte das atuações ‘ao vivo’ são. Depois das Sweets, era chegado o momento de ver o comediante da noite. Era o grande Sammy Shore (pai de Pauley Shore, para quem não sabe). Era hilariante. Quando terminou a sua atuação, as cortinas voltaram a fechar-se e, finalmente, “Ah... a orquestra está a movimentar-se, uma nova banda está a ocupar os seus lugares.” Claro que era a banda de Elvis.

Enquanto esperava, o público estava a ficar cada vez mais inquieto e barulhento. Sempre me senti espantada com o caos que se passa por trás daquela cortina e do qual o público nem se apercebe. “Se ao menos o público pudesse ver a confusão que está a acontecer agora,” pensei. E depois, aconteceu. Um solo muito excitante de bateria que era a introdução para Elvis naquele tempo, pelo melhor baterista do mundo, Ronnie Tutt. Neste momento, mesmo no momento perfeito, Elvis entrou no palco, vindo do lado direito (lado esquerdo do público) e toda a sala se iluminou com a sua luz, energia e força. Trazia um fato branco vestido (ainda não usava as capas, como iria decidir fazer em breve). Era magro, esguio, alto e o fato era maravilhoso com muito poucas “lantejoulas”, e as cores cósmicas de um pavão feito com bom gosto e acho que também trazia um cinto de macramé em tom turquesa pendurado num dos lados. (Nós, crianças dos anos 60, tínhamos armários cheios deles, e alguns até feitos por nós). Ele tinha Olhos! QUE TRANSFORMAÇÃO do motociclista com os óculos! Nunca hei-de esquecer a imagem.

“Ele tem olhos! São lasers azul turquesa! São espetaculares!” pensei. “Ainda bem que não os vi através daqueles óculos de sol, pois talvez me tivessem queimado com um buraco.” Claro que as luzes do palco os refletiam e não estaria em perigo quando o visse cara a cara outra vez depois dos concertos. Ali ele estava em toda a sua bem merecida glória. Era o melhor artista, a mover-se com graciosidade e tomar conta do palco e de toda a sala de espetáculos. Ele emanava mais luz vinda de si mesmo do que as luzes que se derramavam sobre ele. Se a sala estivesse completamente às escuras, ele seria capaz de criar luz,” pensei. “Obviamente que ele é uma pessoa que se realizou. Que teve tempo de se conhecer, o Auto Conhecimento aqui é óbvio. Ele alcançou o estatuto de ‘MESTRE’. Está a emanar a luz de estrela interna mais brilhante que alguma vez vi. (Todas as ‘estrelas’ têm um grau dessa luz, mas este homem tem pelo menos cem vezes mais dessa aura de luz que rodeava todo o seu ser, que emanava dele e gerava uma sensação de que podia tocar e alcançar as almas de cada pessoa que estivesse na sua presença). Quando mais tarde fui chamada no hotel pelos meus pares da indústria que me disseram que certas pessoas da comunicação social queriam saber o que eu achava, dizia-lhes, “Ele tem mais carisma do que qualquer outra estrela que tenha presenciado. Podemos ‘Senti-lo’ a entrar numa sala antes de o vermos.” Claro que, felizmente, isto se tornou numa parte da sua história quando as pessoas tentam descrevê-lo.

Naquele momento que acabei de descrever, coincidentemente algo mais ocorreu de forma extraordinária. A reação da multidão. Levantaram-se com um só ser, a gritar mais alto do que acho que alguma vez tinham feito nas vidas, a esticar os braços para ele, a deitar tudo e todos abaixo perto de si, numa tentativa de chegar perto dele... de lhe tocar. Algumas pessoas desmaiaram. Sim, caíram redondas. “E se alguma teve um ataque cardíaco? Oh, meu Deus! Quem podia saber? A pessoa com quem estavam nem lhes prestava atenção! Estava demasiado ocupada a gritar e a esticar os braços também! Oh, meu Deus.” Felton continuou a mexer calmamente nos botões do som e a banda e os cantores faziam o que Elvis tinha decidido fazer no momento, como se tivessem ensaiado, nunca perdendo o ritmo, nunca perdendo uma nota, sempre juntos como numa Única Mente. “Estes são mesmo os Melhores. Os músicos/cantores Mais experientes. Ele tem o Melhor de Tudo e de Todos,” apercebi-me...  e lembrei-me de repente de qual seria o meu trabalho na noite seguinte. De bloco notas e caneta na mão, comecei a tirar apontamentos. A voz dele era extraordinariamente mais apta do que alguma vez imaginara e tinha uma qualidade mais madura e rica. “A sua amplitude! Ele também aumentou a sua amplitude! Meu Deus, ele acabou de alcançar um B aberto!??? Então! Também tem andado a estudar e a moldar a sua voz!??” Era óbvio para mim que não só não prestara atenção a ouvi-lo nos discos, como também fizera um julgamento totalmente errado da sua natureza. Este homem estava obviamente a lidar com as mesmas questões que todos os artistas lidam: “O seu sucesso comercial obscureceu o seu verdadeiro génio...” suspirei para mim. A sua imagem NÃO corresponde a quem ele realmente é. Certamente que ele sabe qual é a minha escritura favorita, “Fica quieto... e Sabe... Eu Sou... Deus”. Ele “viu a luz”, tornou-se Uno com Ela, com a Luz que existe dentro de cada um de nós e que, infelizmente, a maior parte de nós nunca procura. (Nota: Quando Elvis e eu falamos posteriormente sobre isto, ele disse, “Não foi suposto tu teres olhos para me ver, ouvidos para me ouvir ou ser uma fã, Kathy! Percebes? Não te terias concentrado a ser ‘tu mesma’, a tornares-te em quem devias ser, uma cantora clássica. Terias sido uma seguidora daquilo que era ‘popular’ e não te terias tornado no teu verdadeiro Tu! Tu ÉS tu, um ser Único! Se tivesses sucumbido à forma de pensar de um grupo...Obviamente que estás “consciente”, mas não estavas destinada a seguir ninguém... estavas apenas destinada a seres TU MESMA. A aperceberes-te do teu Eu! Se não o tivesses feito... Então, não estarias aqui comigo”.)

E depois fiquei irritada pelo facto da multidão estar a ser tão barulhenta. “Não consigo ouvi-lo ou o grupo! Porque não O OUVEM? Estão a perder a Música! Ele é uma MUSA! Ele é uma VOZ!” Mas também ninguém me ouviu a mim. Fiquei no meu lugar com Felton e o meu bloco notas e caneta prontos para o concerto da meia noite, também pronta a tomar conta dos negócios e, “O quê? Oh, Não! Este não é o mesmo concerto, nem tem as mesmas canções, e, oh, meu Dues, os apontamentos que tirei são inúteis... e que diabo hei-de eu... UFA! Lembra-te, Kathy... A descrição do trabalho, logo no início, foi… isso!... Ser capaz de IMPROVISAR, SEGUIR O INSTINTO E CONTINUAR EM FRENTE, fazer harmonia com o grupo por vezes e não interferir quando é altura de outros fazerem a ‘sua cena’, como também me pediam para fazer por vezes, e acrescentar as notas agudas sempre que eu achasse “que ficavam bem”. Tinha alguma experiência a cantar em harmonia com grupos e também a escutar. “Mas não sou realmente uma Voz Aguda como ele diz! Sim, sou uma soprano, mas a minha amplitude vocal é muito menor que a de Millie e não é tão alta! Ela canta Es, Fs e Gs agudos e... sim, sou capaz de fazer isso, mas noite após noite, o meu estilo clássico será demasiado agudo... E como poderei saber se o microfone é capaz de lidar com certos sons? Se cantar de forma mais suave, serei de todo ouvida?”

Estes pensamentos percorriam-me o cérebro. Os espetáculos terminaram e Felton voltou a levar-me para o corredor e área dos camarins. Elvis surgiu de repente. O quê? Uma estrela que quer e faz questão de “ser ele” a apresentar um dos seus novos elementos a toda a gente? Isto nunca me tinha acontecido antes. Ele estava tão entusiasmado, e perguntou, “Gostaste do espetáculo? Gostaste?” (A maior parte das estrelas estar-se-ia nas tintas para o que outro elemento dos seus cantores achava. Raramente sequer reconhecia a sua presença). “Sim! Foi incrível!” respondi de forma débil, ainda preocupada como iria saber o que podia acontecer. Ele era tão percetivo, tão intuitivo e vendo que eu parecia um bocadinho preocupada, disse, como se estivesse a ler-me o pensamento, “Não te preocupes! Estás nervosa?” Olhou para mim com aqueles olhos de laser azuis e disse, “Não estejas! Amanhã à noite vais sair-te mesmo bem! Só quero que descontraias e te divirtas! Não te preocupes de todo em cometer erros!”

Ele deu umas risadas, enquanto aquele sorriso incrível lhe inundava o rosto e os seus olhos reluziram. “AGORA, VEM DAÍ! QUERO APRESENTAR-TE A TODA A GENTE!” disse ele, de forma entusiasmada, enquanto me pegava pela mão e me puxou um bocadinho depressa demais no início, voltando a rir-se enquanto me orientava... para me apresentar pessoalmente a todos os elementos da minha nova “Família”. Aqueles a quem, sem o saber na altura, viriam a partilhar a minha vida, a minha arte, a minha alma e os meus pensamentos mais íntimos... o meu Ser... durante os sete anos seguintes. 

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