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QUANDO NOS CONHECEMOS (3º e 4º Dias - Em Palco)

Na noite seguinte, enquanto me apressavam para o palco e a cortina subia, encontrei o meu banco e microfone colocados ao lado de Myrna e em frente aos Imperials, como Elvis me tinha dito que decidira e queria. Conseguia ouvir melhor as raparigas, sentir o que faziam e juntar-me a elas onde podia, e também conversar um bocadinho com Myrna, o que ajudou imenso a “sentir” em que sentido cada canção se orientava e intuitivamente saber o que Elvis estava a fazer enquanto mudava o espetáculo por completo, consoante a forma que lhe apetecia.

Até comecei a habituar-me às espontâneas “mudanças” de disposição dele, mesmo a meio de alguma canção e, surpreendentemente, mesmo sem pensar, conseguia acrescentar uma parte aqui e ali, incluindo um obligato (uma parte a solo cantada apenas por uma soprano, acima do coro) sem pensar. Começou tudo a acontecer espontaneamente. Também conseguia vê-lo melhor, enquanto nos orientava em que sentido se encaminhava, ler os seus olhos e dar pistas. Tinha era de ignorar a loucura das multidões e concentrar-me no momento, no “Agora” em palco, e na minha voz.

Aqueles que de entre vós são cantores, sabem que uma das coisas mais importantes que um cantor aprende logo desde muito cedo é a encontrar um ritmo a meio de um espetáculo, e assim saber como ter poder ou amplitude necessários para uma canção em particular, depois de já cantar há muito tempo. Bem! Isto “estava fora de questão” e era “impossível”, quando se trabalhava com Elvis, porque se nem mesmo ele sabia o que ia fazer, muito menos sabíamos nós. Dei por mim a desejar não ter dado muito ênfase com as raparigas uns momentos antes numa canção em particular, porque ele decidiu cantar uma canção que me exigia estar no topo do extremo da minha voz e nem tinha a certeza de ter o que era necessário para esse efeito. Um apoio, colocação e processos de pensamento para cada exibição potente no estilo clássico de cantar são exigidos, e eu precisava de proteger a amplitude de soprano da minha voz por forma a que durasse durante o meu suposto tempo de contratação com Elvis. Isso, ao menos, SABIA! Mesmo assim, tinha momentos em que pensava, “Não pertenço aqui! Que faz uma soprano clássica com todos estes músicos de rock a tentar cantar com estas vozes femininas tão potentes e criativas que conheço tão bem... como as raparigas melhores de R&B e gospel da história da música?!!! Oh, Kathy, colocaste-te mesmo numa posição estranha neste espetáculo!” E depois voltava logo a pensar, “Mas que faço eu aqui?!!!”

Uma recordação bastante notável que tenho dessa noite foi a perceção nítida de que, não importava o que Elvis decidisse fazer, quando ele decidia “ir” atrás de um sentimento e mudava a meio de uma canção, todos tínhamos de o seguir intuitivamente. Estava espantada. Isto incluía a orquestra inteira! Era como se fôssemos todos Uma Mente. Elvis era o gerador e nós eramos extensões do seu universo. Sim, cada pessoa naquele palco tinha anos de experiência, mas... esta foi uma revelação que jamais hei-de esquecer. Naquele momento apercebi-me que pertencíamos todos misteriosamente ao universo dele e disponibilizávamos um ritmo “perfeitamente em sintonia” em forma de átomos ou galáxia, cada um de nós com a sua posição planetária, a mover-se com perfeição em torno do Sol... Elvis.  A epifania que tive com esta experiência foi um momento de alegria no tempo que nada tinha a ver com encontrar uma voz rudimentar ou “perfeição” musical, mas que Elvis e “aquilo” era uma ênfase tão espontânea de “Sentimen

to” como a alegre expressão “Estar no Momento”. As alturas em que nos apercebemos que alguém está realmente a viver o “Agora” já são suficientemente especiais, mas isto... isto... era tão incrível. Um palco cheio de excelentes músicos e cantores do ponto de vista técnico que, de alguma forma, se tornavam NUM SÓ SER.

“Isto é MÁGICO!,” ponderei.

As Sweet Inspirations convidaram-me para ir até ao camarim delas e assim pude conhecer as quatro. Em agosto de 1970 haviam quatro Sweets: Estelle Brown, Myrna Smith, Sylvia Shemwell e Ann Williams (que saiu pouco depois, ficando apenas três). Não fazíamos ideia naquela noite o que o destino tinha reservado para experienciarmos, nem como nos iríamos tornar tão amigas nos 7 anos seguintes. Apenas nos agarramos umas às outras enquanto voávamos mais rápido que a maior parte dos cometas e dependíamos umas das outras para manter a sanidade e as VIDAS.

A noite seguinte foi muito estranha. Elvis voltou a surpreender-me na escuridão das partes laterais do palco, enquanto a bateria tocava para marcar a sua entrada pelo outro lado. Ele estava de pernas abertas, o seu cinto de macramé a baloiçar, a olhar-me nos olhos, a dizer excitada e rapidamente, “Se alguém te perguntar esta noite, responde-lhes que és comprometida! Está certo?”

“O quê! Porquê?!” questionei.

“Por favor, faz isto por mim, okay? Explico-te tudo depois.” Fiquei perturbada e espantada, mas não tive tempo para me preocupar com aquilo naquele momento… ele e eu éramos os únicos que ainda não estávamos sobre o palco.

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