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A NOSSA PRIMEIRA CONVERSA: "TU TAMBÉM?" - PARTE 2


 

No segundo ou terceiro degrau que levava à porta da entrada da suite, ele puxou-me de forma extasiada. Ele fez uma curva mesmo ao lado das portas duplas da frente da suite – as portas para as quais eu esperava que nos estivéssemos a dirigir para sair – até a pequeno hall do lado esquerdo, que dava para a sua suite privada e aposentos. Agora dava por mim numa sala de estar com um pequeno sofá de veludo azul, com madeira escura a esculpir as suas costas e braços, à sua frente uma mesinha de centro de mogno bastante polido, onde ele disse, “Vamo-nos sentar aqui por um bocadinho antes de ires embora. Quero saber tudo acerca de ti.”

 

“Bem, ISSO levaria muito mais do que um minuto e está a ficar tarde, por isso...” agora já começava a ficar um bocadinho inquieta, sem realmente sentir medo dele, mas um bocadinho ansiosa. “Preciso mesmo de ir embora.”

 

Ele riu-se um pouco, abanando a cabeça, “Só... só por um minuto?” Sentei-me na berma do sofá. Sabem... a forma como uma pessoa se senta quando está mesmo para ir embora. Lembro-me muito bem disto porque a berma daquele pequeno sofá era muito desconfortável, e a moldura de madeira do braço também não me ajudava muito a apoiar-me... era desconfortavelmente pequeno e não o tipo de sofá em que uma pessoa se podia acomodar.

 

Ele reparou que os meus olhos não continuavam a olhar para os seus para tentar cruzar pequenos olhares, e antes percorriam a pequena área livre do meu lado esquerdo, onde ficava a cama dele... em cima de um pedestal, adequada para a realeza, com um dossel e cortinados em tons vívidos e fulgorosos de azuis e verdes, presos no lugar com umas cordas que terminavam com borlas.


“Ora! Por favor... ah, por favor,
não te preocupes, Kathy”, tentou ele tranquilamente acalmar-me, “Eu... ah... esta é a única área privada que tenho para falar contigo a sós. As portas que dão para o hall estão abertas e eu nunca, nunca faria nada para te magoar... Só quero conhecer-te. Apenas quero conversar contigo. Falar contigo... a sós... sem sermos interrompidos. Não faz mal?”


Bem!... Eu estava preocupada, mas... já tinha passado anos da minha vida a viajar como sendo apenas a única mulher num grupo de homens, ou uma de poucas mulheres com um grupo de homens, por isso, aquela situação não me era estranha, em que o único sítio que uma pessoa tinha na Estrada para falar com alguém, era no seu próprio quarto de hotel. No entanto, estava muito perturbada com a confusão, o mal entendido ou falta de comunicação sobre o que esta noite significava e estava realmente nervosa, no mínimo.
 

“Ficas aqui sentada comigo a falar apenas por UNS MINUTOS? Sei que precisas de ir embora, e... mas eu só...”
 

Decidi tomar conta daquilo que me estava a preocupar muito rapidamente, mas da forma mais educada possível. Assim que comecei a dizer o que pensava, as palavras saíram quase demasiado depressa e nem parei para respirar.
 

“Preciso de ir embora. E... Olha, Elvis!... Eu não fazia ideia nenhuma que este convite tinha alguma coisa a ver com o facto de ser a tua companhia!... que o grupo inteiro não iria estar presente para conviver… e falaste com o John? Pediste-lhe a sua permissão? Ninguém me disse nada! Ninguém me perguntou nada! Porque não me perguntaste a mim diretamente?!! Fui convidada para vir para uma reunião! Não sei o que te fez pensar  que era  a tua  acompanhante!? Oh... E  é óbvio que mesmo assim sais com outras mulheres, muito embora sejas casado?” Dei um salto de repente.

(
Esta cena do “conhecer-te-na-base-da-amizade”… ahnão tinha começado nada bem. Quando agora olho para trás, foi como dar um salto de 30 metros na berma daquela famosa falésia em Acapulco, sem saber nadar, se... se... conseguisse passar pelas rochas salientes e não me desintegrar quando chegasse às ondas lá em baixo. Isto NÃO estava a correr... nada bem!)


“Escuta! Eu apenas pensei...
NÃO fazia IDEIA que isto era…”


Então ele interrompeu-me lentamente repetindo as palavras, “Eu apenas... quero... conhecer-te... como amiga! És capaz de ficar aqui sentada por uns minutos a conversar comigo? Peço desculpa, Kathy. Lamento a confusão. Sabia que tu e o John estavam muitas vezes juntos e queria saber o quão séria era a vossa relação. Eu... eu... não sou lá muito bom neste tipo de coisa. Sabes... na realidade, tenho... bem... tenho um bocadinho de receio de ti. Não sabia como te abordar. Tens este... este... muro invisível ou aura à tua volta… este… ar de
‘Tira as mãos, não me toques!’” Ele estava a olhar para mim com ambas mãos a moverem-se para trás e para a frente no ar, com um sorriso tímido, um olhar muito pouco confiante no rosto. Os olhos dele pareciam implorar uma resposta, mas... de mim só obteve silêncio, pois estava espantada a pensar naquilo que ele tinha acabado de dizer, sem sequer começar a compreendê-lo.
 

“O quê?” Estava espantada e ainda mais confusa. “Queres dizer que não sou simpática? Que fui mal educada contigo em algum momento? Eu... eu sempre fui considerada uma pessoa calorosa, nunca ninguém antes me tinha dito que era antipática.” Aqui ele tinha sido bem sucedido em me desarmar e interroguei-me porque raio estaria ele assim tão tímido!
 

“NÃO, Não, não! Kathy!... Não! Tu És simpática. Não foi isso que quis dizer. Só sei que és diferente das raparigas que costumamos ver por aqui a maior parte do tempo, entendes? Eu sei! Pude ver... que és uma rapariga que... que… com quem não nos devemos meter. A maior parte das vezes, as mulheres que vemos, estão a atirar-se para cima de mim e... oh, raios, não vês? Eu não sabia exatamente como fazer para te conhecer, como te pedir. Calculo que quando entrei por aquelas portas esta noite, entusiasmei-me um bocadinho, pensando que talvez se te desse a entender que gostava de ti... talvez... talvez tu também gostasses de mim.”
 

Hesitei um pouco, mas lembro-me mesmo bem do olhar dele, e do seu aparente esforço sincero em me assegurar que ele só tinha intenções puras e comecei a acreditar nele. Também comecei a ver que ele não era tão seguro de si mesmo como tinha imaginado. Ele não era mesmo inseguro, mas interrogava-se o suficiente para pensar se uma pessoa também podia gostar dele. Esta era, acredito, uma qualidade saudável, assim como ser sincero em dizer que talvez tivesse presumido coisas em demasia. Isto tinha sido difícil para ele dizer.
 

“Bem… Está bem,” concordei relutantemente, mas acrescentei rapidamente e da forma mais educada que consegui, “mas só por uns minutos.”
 

Naquele momento pude perceber que não estava em perigo de ter problemas sérios e tinha tornado muito claro que não me sentia à vontade com os eventos daquela noite.
 

A nossa primeira conversa é muito clara para mim porque esta tinha decididamente sido uma noite de “primeiras vezes”, várias emoções e momentos chocantes, por isso está... e estará sempre... gravada da minha memória como o início de uma “reviravolta” muito nova na minha vida.

 

O destino tinha-se imposto e decidido que me levaria para fora dos ”trilhos”... para um lugar que nunca sonhara sequer ir, para um campo selvagem misterioso, de onde não se podia sair com um caminho já traçado... um lugar para onde era forçada a ir e saber. Esta nova vida, que me tinha “caído do céu”, estava possivelmente pré destinada e era provável que eu fosse  precisar de uma armadura e de um machado para desbravar o meu pequeno caminho à minha frente durante os próximos sete anos e, sim, até mesmo bem após, pois... até ao dia de hoje, obviamente, escrevo sobre isto, 43 anos depois.

Primeiro ele perguntou-me como é que eu tinha crescido e contei-lhe o que se segue.


Legenda: Kathy, o irmão Brent, a irmã Melody,
a mãe Connie, a irmã Christie Jo e o pai Bresee.

“Sou grego inglesa, tenho duas irmãs e um irmão (a Melody, a Christie Joe e o Brent), fui criada com os meus avós gregos, do lado da minha mãe, com o seu irmão Nicki, que era quadriplégico... tinha paralisia cerebral. Não conseguia falar ou pôr-se de pé, mas tinha uma mente perfeita.”

Elvis disse, “Uau! E como foi isso para ti?”

“Alguns dos meus momentos mais felizes em criança foram passados a cantar-lhe canções em grego, francês ou inglês, a ler-lhe coisas e, deliberadamente, a saltar um parágrafo ou um coro, como a minha mãe fazia, para o forçar a endireitar-se e a fazer um som, depois a rir-se, pois ele sabia que estávamos a fazer de propósito. Para nós era uma situação normal. Ele era amado, ele amava-nos e nunca ouvi ninguém... ninguém na minha família, nunca, chorar ou dizer alguma coisa que me desse a entender que estava alguma coisa ‘errada’ com Nicki... nem uma vez! Nem uma queixa sobre a dificuldade, ou outra coisa qualquer, mas sim na grande alegria que ele nos dava a todos! Isso é estranho, hã?”

Elvis riu-se, depois sorriu muito docemente e disse, “Não é estranho, mas invulgar e exatamente como deveria ter sido feito.”

Lembro-me de parar aqui, mas ele rapidamente incentivou-me a continuar, “E?”


Legenda: Kathy, com 16 anos.

“Nasci em Texarkana, mas mudei-me logo para ir viver em L.A. até ter sete anos... O meu pai era cantor profissional e trabalhava na MGM, nos grandes musicais, em companhias de ópera e operetas de L.A. e São Francisco. O pai era um pastor da música em igrejas protestantes, dava aulas de voz e tinha três lojas de discos onde eu trabalhava e ouvia todo o tipo de música que podia encontrar, desde que tivesse tempo de me esgueirar para uma cabine. (Lembro-me de notar que ele não perguntou se eu ouvia alguns dos seus discos. Isto também era muito típico da sua natureza, como iria mais tarde aprender. Não consigo pensar em muitos artistas – só alguns – que não teriam logo perguntado, “Alguma vez ouviu as minhas gravações disto ou daquilo?” A maioria – não todos – mas a maioria teria encaminhado a conversa para si mesmos). Fui membro de muitas denominações diferentes, mas cresci a aprender a cantar em coros de igreja. Principalmente adoro Música Sagrada, especialmente oratórios, cantatas e sempre me senti obcecada com a voz humana desde que me lembro... estudei música clássica e voz desde muito pequena.”

Elvis perguntou excitadamente, “O teu pai participou nesses musicais, nesses filmes?”

“Sim. Nos filmes Student Prince e The Great Caruso.”

Ele disse, “Quando eu era arrumador num cinema, via os filmes de Mario Lanza vezes sem parar. Ia para o cinema até mesmo quando não era o meu turno, só para poder ouvi-lo cantar naqueles filmes!”

Agora, aquele conhecimento de Elvis surpreendeu-me imenso. Tive dificuldade em imaginá-lo como um jovem adolescente arrumador num cinema e ainda mais surpreendida que ele realmente estudasse a voz de Mario Lanza e os filmes. “Hum...”, pensei. E dei por mim a perguntar-me outra vez... “Mas quem é este homem?” Nunca poderia ter imaginado que ele sequer sabia quem era era Lanza!

Ele incentivou-me a continuar, “Continua... quero saber...”

Decidi que era chegada a altura de ele me contar um bocadinho acerca dele mesmo!

“Mas, também quero saber imenso acerca de ti. Nunca imaginei que tivesses interesse em Mario Lanza!” E depois recordei e contei-lhe algo que o fez sorrir um sorriso que iluminou o quarto.

“Sabes, eu realmente espantei-me com a tua gravação de It’s Now or Never e lembro-me de pensar que havia muito mais em ti do que aquilo que tinha pensado antes. A tua voz tinha amadurecido e realmente cantaste como se tivesses começado a estudar técnicas vocais clássicas. Essa foi uma gravação poderosa! A tua voz surpreendeu-me nessa canção.” O sorriso dele tornou-me muito consciente que... e lembrou-me que... não importa o quão grande uma estrela é, não importa a dimensão da sua imagem... ele ou ela é um ser humano e precisa de saber o que os outros acham da sua arte, ou das suas contribuições para com os outros. Não apenas um “Oh, és ótimo!”, mas precisa de saber de uma pessoa que, de certa forma, tem importância.

“Isso é porque a minha imagem... a minha imagem comercial... é diferente de quem realmente eu sou,” disse ele com um tipo de aceitação interior, depois incentivou-me a continuar. (Esta era uma qualidade que Elvis tinha que iria aprender durante o curso dos sete anos seguintes e que era muito bonita. Ele interessava-se sinceramente por cada pessoa, queria saber tudo acerca dela, da sua vida... não importava quem a pessoa era, não importava de onde vinha).

“Continua,” disse ele.

“Mais? Já é muito sobre mim. E tu?” perguntei. Mas ele queria saber mais, por isso, fiz-lhe a vontade.

“Estudei ballet com a minha mãe grega (que era uma bailarina profissional de sapateado e flamengo) desde os 4 anos, fui para uma escola primária onde só andavam crianças negras (se bem que vivêssemos um bairro só de brancos) até ter 7 anos... depois mudámo-nos para o Texas.” Elvis escutava atentamente. Estava sinceramente interessado em saber quais eram os meus antecedentes.

“Então, os teus primeiros amigos também foram negros?” perguntou. “Eu vivi nos projetos habitacionais, por isso, também tinha amigos negros. Também não consigo entender o racismo, Kathy, e se bem que agora esteja melhor... está longe de estar bem.” (Enquanto lêem isto, tenham em mente que tínhamos acabado de sair de guerras raciais nas ruas desta nação, e só tínhamos começado a fazer alguns progressos em relação à integração dos negros e dos brancos). Continuei, pois ele estava silencioso, à espera.

“Sim. E nunca nenhum deles alguma vez mencionou que eu tinha uma cor diferente da deles… Nunca! Uma vizinha disse uma coisa horrível à minha mãe quando eu levei a minha melhor amiga para casa para brincar, e disseram-nos a ambas que tínhamos ‘cores diferentes’ e que só podíamos brincar juntas na escola. Quando a minha família se mudou para o Texas, onde o racismo era imenso, tive um choque cultural. O racismo, em qualquer parte do sul, continua a ser tão pior do que em qualquer parte da costa.”

“Se eu sei!”, interrompeu ele.

“Estudei piano, bateria, mas... já chega de mim! Quem mais costumavas ouvir?” Agora estava bastante curiosa acerca deste interessante artista e sobre a sua personalidade curiosa... o tipo de pessoa com quem eu preferia conversar, na realidade. Agora estava de forma clara a tomar a forma de um homem que era curioso e que queria expandir o seu conhecimento acerca de tudo, uma pessoa que fazia perguntas e não parava de procurar pelas respostas.                                                                                                 
                                                                                                                                                                                          (Continua)
                         

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